domingo, outubro 22, 2017

O inefável


Eu morro estranhamente... Não me mata a Vida,
Não me mata a Morte, não me mata o Amor;
Morro de um pensamento mudo como uma ferida...
Não haveis sentido nunca a estranha dor

De um pensamento imenso que se enraíza na vida
Devorando alma e carne, e não chega a dar flor?
Nunca carregastes dentro uma estrela adormecida
Que vos abrasava inteiros e não produzia fulgor?...

Cúmulo dos Martírios!... Levar eternamente,
Descoroçoante e árida, a trágica semente
Cravada nas entranhas como um dente feroz!...

Mas arrancá-la um dia numa flor que abrisse
Milagrosa, inviolável!... Ah, melhor não seria
Ter entre as mãos a cabeça de Deus!

- Delmira Agustini

quinta-feira, outubro 19, 2017

Colson Whitehead, "A Estrada Subterrânea"



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)



O real é como o fantástico:
mede o mundo com medidas arbitrárias
 
Rainer Maria Rilke

A tarde levanta as suas âncoras rosadas
e parte,
deixa ao frio todos os vestígios.
Sombras misturando-se ao sal e à neblina,
charcos, bichos d’água,
um braço de canteiros
com as flores que lhe restam
farejando na treva.

Negros, mínimos sinos,
espicaçados pelo vento –
sem cor, quase só ruído e cheiro –
soam longamente
enquanto as ruas se estreitam,
já sem luz,
e a distância nos diz coisas incríveis.

Queres as horas certas, perguntas,
pedes tempo a qualquer corpo triste.
Deixas-te amparar no primeiro café.
Estrelas extremas
sobre estas mesas de aço,
pedras assobiando ao passario.

Qualquer fantasia já vai juntando
umas letras, aprende a escrever,
escolhe um veneno.

Ócios nocturnos,
a noite mesma
um ritmo de cotovelos, este avolumar
de páginas enfurecidas.
Deserções, desacatos, versos imperdoáveis.

Que idade perdida,
que cheiro a desinfectante,
e a veemência destes velhos
contadores de lérias-lendas,
acorrentados aos seus inúteis lemes –
em cada bolso um reino
só de traças.

A afundar-se há anos a um canto,
um piano decrépito
acarinha alguma balada profana –
tão cheia de escuridão,
como se dela bebêssemos noites futuras.

Recolhemos a nossa morte
na vida dos outros.
Por isso vens,
fazes-te vítima de tudo:
as coxas, meias de malha,
mãos de louça antiga,
sardas
e que boca, que madrugada adolescente.

O olhar, pequeno vadio
de cor perdida,
segue apalpando o que tem por diante,
antes que também esfrie
e o desejo escureça
inteiro
numa garrafa.

Irás depois, sem nada,
em busca de algum espelho doce
e de uma lâmina lenta
que te rasgue um último sorriso.

terça-feira, outubro 17, 2017


Obeissez à vos porcs qui existent.
Je me soumets à mes dieux qui n’existent pas.
René Char


Bruscamente a janela recorda-me
que tenho um rosto.
Levo-lhe a mão e sinto nele
a incrível ausência
daquele miúdo estúpido e doce
que esperava o melhor de mim.

Escrevo algumas linhas sentado,
a cama absolutamente desfeita,
uma só flor agoniza
na jarra da inspiração,
largando um cheiro odioso.

Nas ruas assisto à grosseria das manhãs
O vazio imitando o melhor que sabe
(do que se lembra e pelo que ouviu)
a ordem mágica do despertar.

A região não tem pássaros,
é de uma frieza inquietante,
servida de ecos, gritos abafados.
Sempre um mau tempo que
não se explica.

A chuva amolece-me os ossos.
Se ao menos as árvores se calassem,
gerassem frutos, mas não.

O vento arrasta-se eriçadamente,
esfomeado, geme. Parece às vezes
falar sozinho. Umas ideias estranhíssimas.

Nos charcos é fácil perceber o olhar frio
dos deuses.
As flores ardem num instante, apagam-se,
deixam-se pisar.

Tento recuperar os nomes às iniciais
entre a retórica dos muros
nesse desvio face aos dias em que jurámos
nunca crescer.
Não restam agora quaisquer dúvidas:
Crescemos.


queriam muito ser, e nem importa o tempo, fim do mundo, princípio, cavernas, raio que o parta, desde que fosse já, sobre a linha do agora, agora, o circo mais barato, não o quiseram na província ele arrumou-se e veio amuado para a cidade, cá já entendem com'isto é arte, colagem, salto à corda, sessão de espiritismo, pagode, um porta-aviões de papel, a guerra no ultra-bar, gaitas, gazuas, conversa pra cima das duas da manhã, galáxias de lixo, um luxo desses não se nega, era tudo de um encanto, uma lindeza, como se usa por aí, o amor vendendo fiado, faziam-se coisas, uma personagem bem lascada dava para meter cem em cima dum palco, bem de pé, envolvidos nos próprios braços, um urso toca xilofone, há um piano, há sempre, e o sexo feminino estadista e general, depois aquele faz imitações, o outro fuma como as estrelas no cinema, e nisto um mau cheiro tão característico da época como tabaco, suor, uma nuvem pela cintura enquanto as perninhas ficam de molho para aliviar da gangrena, nesta combinação de narcisismo, depressão, produções efémeras, e está a faltar-me ainda aquela palavra obscena, que rima com medo e cheira a atropelos, pudor, colhões... lembro-me quando partiram o baralho, nos deram os jokers julgando que assim nos punham fora de jogo, e já então ríamos, e o palonço-organizador veio a terreiro lembrar que a poesia não era uma religião, na ciência lá dele havia de ser outra desculpa, deus morto, o homem morto, que mais haveríamos nós de ousar senão a moral das formigas, juntas, não interessa quem, nem onde ou porquê, mas venceremos!, por certo não haveria de ser nada que perturbasse os modos de se coçarem uns com outros, nada de litúrgico, nem o menor ensaio de virtude, vão lá perguntar ao índio porque é que canta como se quisesse trepar e aguentar-se num galho com a leveza com que os pássaros enfeitiçam o bosque, ou porque se confunde com os coiotes na hora em que tiram notas com a lua sobre os lugares onde dormem as presas, porque quis a espécie ser a que se move por dentro das suas articulações, se adianta e evolui tomando o lugar do outro, nesse constante movimento, vasculhando na sua origem o seu fim e o que possa haver além dele

o lorinhão escorreito


O que é o suplício de Tântalo?
É uma luz muito íntima que me aquece à noite.

O que é o suicídio?
É descer lentamente com o vagar de quem sobe.

O que é o amor?
É uma rua muito sossegada onde só se passou uma vez.

O que é muita fome?
É um tinteiro de prata cheio de sangue.

O que é a nobreza?
É o vento dos bosques.

O que é o sonho?
É o simulacro da melancolia.

O que é a coragem?
É uma igreja dentro duma noz.

O que é um Galo?
É uma dilatação na parte posterior da cabeça.

O que é a razão?
É uma carta vinda de longe.

O que é a noite?
É um texto muito antigo entoado por uma multidão de sapos.

O que é o destino?
É o amor a todo o comprimento.

[...]

- Mário Cesariny 
in Primavera Autónoma das Estradas 

segunda-feira, outubro 16, 2017


El único argumento es ya el de la mirada. 
J. M. Caballero Bonald


Estar aqui sem que ninguém o saiba
tem a sua mecânica.
O meu silêncio não é nada.
Braços cruzados
e a mão com que coço o mundo
fica aí, fria e indiferente.

Dentro da garrafa
onde me quebro e perco pé
noutra destas noites ansiosas,
sirvo reflexos
que levantam o mesmo copo e se saúdam.

Embriagado de imagens,
dominado por altíssimos impulsos
(though this be madness there is method in it),
gelo de cada vez que me apanho
a falar sozinho.

Nos dias mais fracos, dando conversa
a fantasmas (sempre lúcidos),
vem-me esta vergonha de conservar a vida,
de ter oferecido a sombras os melhores anos.

Sabendo que a verdade de um homem
não lhe serve de nada
e é o seu erro
que lhe exige todas as forças,
cada um ergue à sua volta
uma pátria de circunstância.

Tudo está aqui.
Temos as nossas causas nobres
e lances amorosos,
trocamos beijos e instruções,
sexo e esquecimento.
Mas persiste a sensação
de que não passamos de cadáveres
segurando rosas.
Corpos esquivos entrelaçados
por delírios sombrios.
Neutras, indolentes figuras
que a navalha da loucura afia
e a beleza imita.

Quando nos sentamos descalços
e sem camisa, o silêncio
chega-se e cheira-nos as palmas
voltadas sobre a mesa nocturna,
pedindo um verso que perdure
como um baloiço entre ruínas.

domingo, outubro 15, 2017




Pelo caminho mais curto, vem e perde-se,
a desfiar o astro, chocalhar a bússola
entre o carnívoro pó da terra,
atento às coisas do vento,
como se fora esperado, chega
acompanhado pelas rosas migradoras,
ali onde cresce a árvore
que guarda a distância do real.

Os frutos cairão muito mais tarde
num campo sagrado.
Algures um sino lembra essa vizinhança
que o afadiga tanto.
De joelhos, escuta a água,
um galope de esbatidos rumores.
Olha com a força antiga de quem
vê nas coisas um rastro comovedor:
um regador, um rastelo abandonado
no campo, esse labirinto de restos
à beira de um poço, das casas
firmes na sua adesão à pedra.

Pede a voz, os gestos de quem se ausentou.
Pede licença, empurra com o peso do corpo
o que sirva de porta para algum mistério.
A luz de cabeça deitada na mesa,
dedos esticados para um copo meio bebido
a absorver o menor tremor.
Tantos dias, talvez semanas nisto,
é possível que um gole só
faça balançar a região inteira.

Trouxe-o a sede de um cego,
um murmúrio como uma doença.
Internado, tirava duas gotas de tinta
de uma flor, das partes de um escaravelho
fazia o seu pequeno estúdio e
tombava para o interior do seu talento:
nomes trocando o gosto
entre fantasia e treva, tão fundo
quanto dois olhos alcançam.
À mesa lendo ecos uns aos outros,
cosendo um novo com o que dos restantes
lhe perturbasse o sangue,
um suspiro atravessando corpos,
ouro pilhado de épocas inteiras.

Do grito quebra-se um galho e um pássaro
leva o pressentimento de outra estação.
Longe dos homens,
vamos ao sabor de raivas, cansaços,
como assassinos relutantes,
de corpo quase perdido, fazendo pontaria.
Esquivos uma hora, ferozes na seguinte,
guiando na aragem certos sinais,
caminhamos para a vida que nos assusta,
onde a noite estende a cadeira a um velho
e os dois se falam,
menos sobre o dia que passou
do que sobre esse estremecimento
que lhes resta.

sexta-feira, outubro 13, 2017

Na biblioteca da escola depois da guerra


Ao entrar sinto a cara a arder:
montes de livros, migalhas de cultura e de beleza
juncam o chão como espigas calcadas
após a passagem de um brutal furacão.

A poeira da guerra veio pousar nos lábios
dos homens de génio. Vozes incorruptíveis
a troar por cima do espaço e do tempo.
Mas incapazes de esmagar as botas do fantasma.

Apanho o livro pouco espesso furado
por uma bala. A chaga é horrível.
Todas as folhas estão manchadas de sangue.

Abro. Leio. Não posso reter as lágrimas
quando o título vem dançar diante dos meus olhos:
«Os sonetos sangrentos de Hviezdoslav.»

- Julius Lenko
(retirado daqui)

Talvez menos de um minuto seja suficiente
pra se afeiçoar a uma planta.
Um cacto poderia sorrir uma eternidade
antes de um humano perceber.
Há uma coisa entre o se afeiçoar e o perceber
que deve estar além do perceber.

Contamos coisas ao vento
como quem secretamente deseja que as ouçam?
Como quem deseja a realização de um sonho
no ecoar do desejo?
Como se sussurrando num furo de árvore
pudéssemos nos livrar do peso dos segredos?

Não se deve dizer a uma planta
o que só se diria a si mesmo.
Nem a relva, a água ou o vento
conhecem todos os segredos de uma pedra.
Sequer a mais confiável das pedras
conhece nenhum dos meus segredos.

- Cesare Rodrigues

quinta-feira, outubro 12, 2017

terça-feira, outubro 10, 2017

O peixe de ouro

De borracha é a cintura do peixe de ouro, uma curva infinita cavada na carne. E são deletérias as pernas do peixe de ouro, que se locomove como se fosse o corpo acionado por molas. O andar é elástico, o andar do peixe de ouro, e balança a cabeleira cor de charuto no dorso lisíssimo, tapando a nuca. Não vejo a cara do peixe de ouro, sigo-lhe os passos, vejo-lhe as ancas, de potranca, a roupa é rubra, a carne, de ouro, a carne do peixe de ouro. De repente o peixe inclina a cabeça e percebo, não há quem não perceba, um perfil de penugem que o ar divulga, nítido. Segue o peixe, segue, todo um rio segue, rio de bichos, somos todos bichos, mordemos com vigor o músculo das ancas, arrancamos pedaços da anca, da melhor anca, da melhor. Guardo no meu casaco o nobre fragmento da anca do peixe de ouro, e quero ao menos um fio, um fio ao menos dos cabelos, mas já a cabeleira foi roubada à força, quando voava descobrindo o pescoço. Cravo meus dentes na nuca do peixe de ouro e bebo-lhe um mel, sugo aflito, como a uma fruta, meus lábios ficam encharcados, escorre o mel, caem gotas na pedra, minha camisa ensopa-se de baba e mel, um mel raro. Desoladamente constato que trepida a epiderme desgarrada de seu recheio, em mantas, flava a pele há pouco distendida em curvas, ora ouro pisado, de gelhas. Peixe de ouro perde aos poucos seu revestimento muscular, sangra, ossos despontam, interligados por tendões, cartilagens, restos de carne. Com enorme rudez puxo um nervo longo e de bom calibre para encordoar determinada viola d’amore. Desloco, e com delicadeza removo uma vértebra do peixe, como quem se serve de um doce, sorvo o creme vertebral e trituro a fina peça mal calcificada. A meu lado, empunha uma das tíbias como clava, e é milagre a sobrevida do peixe de ouro, que não obstante prossegue sustentando não sei por que espécie de fundamento. Poucos ossos, quase nenhum, raros tendões, nenhuma carne. Agarro para mim a fossa ilíaca; luto por ela, ela me dilacera as mãos, mas é minha, conquistei-a, será o prato real onde comerei. Sigo, seguimos, impulsionados pelo mero costume, pois a unidade se partiu em blocos, o que era peixe não é, senão partículas, pó, aura, microtalco, microtalco de ouro.

- Haroldo Maranhão

sábado, outubro 07, 2017

quinta-feira, setembro 28, 2017

Selva Almada, "Raparigas Mortas", Dom Quixote



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quarta-feira, setembro 27, 2017

Livros de artista na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)