sexta-feira, julho 21, 2017


Uma vez em cem tiro os cães todos, os cartuchos, a espingarda podre e vou atrás da linha final para um início sem a menor hipótese, como fazem os doidos que não conseguem saltar do cavalo de um pensamento e tudo se ri deles como ribanceiras, alturas de onde se mandar e vir fazer em mil cacos, um gargarejo é o suficiente para subir de tom, firmar uma ordem, mandá-los atirarem-se debaixo de um carro, se algo nos separa é subir as escadas, vou ensacando um mal estar ao longo de dias, raspo, faço ferida enquanto não me atiro lá dentro eu próprio, tiro a lupa, foco o sol num ponto, cozo formigas, escalo um detalhe até gelar debaixo das neves dos himalais, concentro-me num pormenor até que me dê vertigens, como se lhe puxasse as tripas, sempre para pior, parece que os oiço acusarem-me de ter ido até ao fim, feito o pior a alguém, e não faço puta de ideia, o advogado manda calar, o mais aconselhado, e eu legítima-defesa, eu juro, juro, mas não sei afastar-me, detesto sabendo que alcanço essa expansão de sentidos de um tísico, e além dos ratos que oiço por trás das belas manifestações da época, consigo inspirar de uma golfada o cheiro que de certos seres se liberta ofensivamente e nos revela o futuro que os espera, detesto e assim oiço os passos com que se chega o amor, a distância de que se põe a espiar-nos, nessa sombra herdada de um velho jogo de paciência, pondo em ordem as mais descamisadas das nossas suspeitas, como vem narrar até esbater o ritmo que nos dobra o pulso, esse jeito cardíaco de se cair de joelhos, cair sobre o som que se faz, bam-bam, um tiro suave entre paredes, uma bala agora, a outra mais tarde, as duas escavando para se encontrarem dentro de nós, isto, pôr a peste nas coisas simples, quando ninguém estava a contar, quando em quartos poluídos um destino mais nobre se recusa a ouvir-nos, os planos todos, o discurso frente aos juízes, tiram-nos até esse gosto de perdão nas coisas de que nos servimos ritualmente, a escova, as lâminas de barbear, "uma máquina de costura, um ferro de engomar, um dado, uma luva, um sapato, um copo de leite", depois o corpo ainda tem a confusão dos gestos, sinais de si a si mesmo, como às vezes se fica tão quieto repetindo uma ou duas sílabas com a cabeça entre as mãos, a ouvir passar o comboio dos sinónimos para uma coisa que não queremos dizer, eu vi-me dias de costas, lavava as mãos com gestos firmes, uma vez e outra, demorando, como se segurasse alguém debaixo de água, tinha alugado um quarto de estudante, tinha a secretária contra a parede, um maço de folhas, e era no branco que me punha a trabalhar na máquina, a tirar-lhe peças, um texto em revisões, as confusões de quem quer limpar e já não se entende no meio dos ecos todos, o que deu foi para servir o reflexo mais sujo, tomar o pó das coisas, as próprias emendas à mão punham sela umas às outras, uma candeia balouçando onde devias ter o ponto de final, impondo uma ordem de recolher, mas se algum verso alguma vez se deixou segurar isso foi depois de teres perdido a fala, a respiração, depois de estrangular um canário para arrepiar o estilo, levámos a coisa a tal ponto que no lugar de qualquer pacto tínhamos feito um corte na língua para que cada frase viesse mais cedo, atalhando, e apressasse também os rios e os sóis, era necessário explicar de novo a inquietação às paisagens, tomar à queima-roupa tudo, vir reclamar as posições cedidas pelo turno de bandalhos que nos antecedeu, puxar de volta o fogo, "engolir água do mar como cerveja", engolir o balanço disto tudo, conhecer o risco dessas idades fatais, essas tristes coisas que se dizem, e como depois delas se apodrece com o balanço dos próprios passos, ter alguma intenção criminosa ao invés de uma preferência quanto à hora da morte, isto antes que a mosca tenha mais com o nosso destino do que as abelhas, levantar a pedra do pensamento, e ir colocá-la bem lá à frente, a limitar só a vida eterna.


Tenho na cabeça as linhas gerais de uma esplendorosa diatribe. Isso e alguns garfos espetados em sítios estranhos. Levo a mão onde me dói e sempre, com surpresa, lá encontro outro. De todos os feitios, diferentes tamanhos. Alguns ferrugentos, de lata ou pobres metais, alguns quase de pau, outros de ligas nobres, com incrustações, autênticas relíquias. Alguns muito à superfície, outros em busca de órgãos vitais. Onde me dói percebo que alguma coisa está fora do lugar, pressinto uma fome inimiga. Não posso fazer outra coisa senão levar as suspeitas a passear, distribuí-las, deixá-las farejar, fazer um mapa ciscando os cantos, e ladrar quando temos diante de nós um ajuntamento qualquer. Dá-me a impressão de que se vê cada vez pior o mundo daqui. Eu vejo-o mal ao perto e ao longe, tenho necessidade de ir lá com as mãos. Aos poucos vamos pondo fogo, Neros tristes olhando da janela de cada quarto enquanto tudo arde. A sensação que tenho de há uns anos a esta parte, andando para cima e para baixo, atravessando-vos, e depois de ter posto as mãos em muita gente (podia dizer nomes; o mais certo era que dissesse o teu), de ter amassado alguns, é que todo este carnaval a entupir a avenida é uma forma de contornar o assunto. Pode-se fazer contas dentro de uma fantasia tal como fora, mas nenhuma equação ergue uma só coluna nos territórios da imaginação. A toda a hora a poesia é um martírio para os que se passaram para o lado do cinismo. Ela orienta contra a inclinação das coisas. A sua natureza é a do atrito, põe bombas nas partes íntimas da autoridade. Diz-nos sempre que está tudo errado, a começar pela sensibilidade, o bom senso. Alguém só está ao seu serviço enquanto for capaz de detectar essas cadeias de relação espantosas e que, estando erradas, alargam a realidade. É contra-intuitiva a ideia de que a própria aceleração produza uma colisão que não acaba, um desastre de proporções que não chegamos nunca a poder admirar porque estamos imersos nessa debandada, num ritmo frenético que copiamos com o sangue. Esta besta locomotora agrega os nossos impulsos, consome-os no seu fôlego, tornando-nos uma espécie com as emoções atreladas a uma bateria ansiosa, só vindo à tona do cansaço para respirar assustadamente para logo mergulhar de novo e tomar o lugar nesta corrente incansável. Uma composição que atravessa as paisagens e as mistura, dissolve umas nas outras, criando uma vertigem que coloca a atenção de joelhos, encadeada, comungando aflitivamente dos fenómenos de que participa com a incredulidade e o encanto das vítimas. Não há desembarque, tudo muscula esta mecânica delirante. Das janelas observamos uma explosão serena. Como nunca ficamos para trás, o rumor da destruição não nos convence. Receando falhar uma batida, empregamos inteiramente as pulsações, timoratos, registando tudo, incapazes de conservar mais que a sensação de uma constante descolagem, uma ausência ou atraso exasperante. Este comboio fugitivo deixa a própria vida para trás. Humilha todos os horizontes.


Antes de sair, a fantasia vestiu o fato de gente ordinária, deixou as pétalas descendo as escadas, fim de tarde fisgado, os passos todos antevistos, dava um pulo à mercearia, duas mãos cheias de cerejas, para adocicar o tom da conversa de si para si, um restinho de tabaco caso a brisa lhe viesse com novas e valesse a pena tomar nota, fumando, mais comum era sentir perro o alcance do bairro, cuspia os caroços, se estivesse a sentir-se maldosa cegava um pombo, mas sensação em relação às coisas gerais, só a de que o mundo encravou, puf, ralo com as existências inspiradas, mandou um postal a pôr por ordem as suas razões, a ela restava-lhe a varanda, a linha dos pássaros magicando novelas de duas notas que ficam para sempre no ouvido, terceiro andar de um prédio aflito de coceiras, ameaçando desabar, os gatos conversando com as alturas, espiando sem interesse nenhum a vizinhança, dali também ela deixava o rádio sintonizado noutra década, canções de protesto e utopias lo-fi, o passado amarelecido com um gosto a adolescência mesmo para quem nem era então nascido, foi a idade mais bonita, o desejo resumia-se agora a que coubesse tudo no quarto, esses gestos sórdidos de tão íntimos, o corpo era um luxo e isso foi antes de meterem nele os fantasmas que vêm depois de se pôr a dizer "eu", hoje que até a garrafa esmoreceu, o álcool recosta-se na cabeça, põe-se a insultar-nos, o que fica lá em baixo, ao nível comum, são ruas militares, a tal prisão descomunal, sem portas, não se consegue passar, e então a fantasia prefere o espelho, a possibilidade de passar um estranho e a levar é maior.

quarta-feira, julho 19, 2017

sábado, julho 15, 2017

língua morta 077




PANGOLIM,
de Narciso Pinto,
com desenhos de Marta Silva

[150 exemplares, 120 pp., 11€]

sexta-feira, julho 14, 2017

Girassol


Desalento
é beber o copo d’água
esquecido na véspera
sobre a fórmica rachada
e merecer o seu fénico
discurso

Desalento
não é vê-lo meio vazio
mas ser indiferente estar cheio,
duvidosa estrela d’alba
que nos dá os primeiros, raios!,
da manhã

Como os girassóis,
apenas numa fase inicial da vida
a seguimos ao longo do dia –
o tempo que resta será dedicado,
como fez Vincent, a pintá-los
sobre um fundo de desespero

Doze numa jarra,
a deixar passar de propósito
a nossa estação -
se isto parece exagero, considera
as pétalas e depois
multiplica pelas raízes

- Luís Pedroso 
(inédito)

quarta-feira, julho 12, 2017

A poesia como contra-criação / texto de Fernando Guerreiro lido na apresentação de "Animais de Sangue Frio", de Elisabete Marques



1. “No meio do caminho da vida” (ASF: 21), um animal, massa escrevente sentada a uma mesa, apalpando/testando emoções e pensamentos, apercebe-se de que tudo mudou (o mundo, ou mesmo ele, já não são os mesmos) e que um “território inédito” (ASF: 21), empolado pelo “coaxar” das palavras (ASF: 13), ali o espera.Em Cisco (Mariposa Azual, 2014) procedia-se ao levantamento mínimo e exaustivo de um território, tanto exterior como interior, indo-se da objectividade plana, mas crispada, de poemas entendidos como “naturezas mortas” (C:11), (“confinadas” [35]), à sua reanimação pela vinda ao de cimo do carácter (in)orgânico, convulso e metamórfico da linguagem e da matéria. No entanto, coexistindo com o modelo de uma poética reduzida (“nunca a gramática foi tão quotidiana”, escreve [C: 21]) e trabalhada de acordo com o princípio ético da literalidade (“tome-se pois/ à letra o que não pretende ensinar” [C:11]), de “mínimos acontecimentos” (C:22) (“pulsares”), emergia já em Cisco a possibilidade de uma poética da imanência (“emanação de solo” [C:17] que reata com a “força de evocação [da] terra” [C:33]), nas suas erupções/consolidações formais, “animista” (amiga da “potência dos germes” [C:36] e atenta ao “júbilo de insecto” [C:32]). A secção final do livro, “Grãos Exemplares”, que evoca a poética lucreciana de Le Parti pris des choses de Ponge (1942), anuncia mesmo o metamorfismo de Animais de Sangue Frio (Língua Morta, 2017).Aqui já se deu a “queda” e caíu-se num abismo de que se pretende sair à força, fuçando pelas palavras o caminho. Passa-se da “horizontalidade” com nós, “grãos exemplares” de matéria e de vida (a “forma” é isso), à “profundidade” de um ponto de vista (rasteiro) que inverteu o alto e o baixo, o céu e o inferno, e vê (percepciona)/ escreve a partir de baixo – em função do olhar (volumétrico = prismático e não linear = cristalino) de uma serpente que engoliu o cimo (vd. epígrafe tirada de “Ébauche d’un serpent” de Paul Valéry [Charmes, 1922 (5)], e os poemas da primeira secção, “Dos famintos”) [1].Os anjos ou outros seres malditos caíram (é essa a dimensão luciferina que a obra convoca [ASF:55] e a gravura de Pieter Soutman, na capa, fixa), mas agora, conhecidas as circunstâncias da queda e os caminhos que organizam esse submundo (o livro está dividido em 9 secções, tantas quantos os círculos do “Inferno” de a Divina Comédia de Dante, constituindo um dos seus “bestiários” possíveis), rastejando de encontro às anfractuosidades do terreno, vencendo-as ou não, esses seres subterrâneos (“sou/ imenso, ainda que subterrâneo” [ASF:36]), assim como aquele(a) que pelo discurso lhes dá a mão, encontraram o caminho para a superfície. 
Se o ponto de vista do alto (teo e teleológico), que pode ser o de um pássaro, abstrai e aerifica, o de baixo, da serpente – um pássaro que perdeu as asas (“reptile aux extases d’oiseau”, Valéry), rasteja (“que podemos, rasteiros?”) e, como o poeta de Poe (“réptile rêveur”), não esqueceu o que viu – é o do escultor que constrói as suas obras a partir da matéria (real) que tacteia, cheira e afaga.[2] 

2. Trata-se aqui, com efeito, não só de partir do material, de um “excesso de matéria” (ASF: 27), carne a amassar, trabalhar como escultura, como, pela tração das substâncias/corpos, soltar o fogo (melhor, o “flogisto”) neles contido (“precisamos de incêndio”, lê-se [ASF:9]) e assim produzir um brilho (“nossas crostas são ávidas de brilho” [ibidem]) não “exterior” mas “interior” à matéria que por ele clama. 
Miguel Ângelo afirmava que nos cabia extrair a “forma” que já se encontrava na pedra (mármore), mas aqui, pela tração/violência dos materiais, há antes que produzi-la, forjando (e forçando-se) uma forma que não é “pura” (como o era a “ideia” de Miguel Ângelo) e que nos vem já tocada, de/caída (“repousa, aqui, uma pêra já picada,/ indício de saliva e de falha” [12], escreve-se)[3]. 
Tudo “formas mortais” (perecíveis e assassinas) (14) que correspondem à urgência de uma fome predatória (“porque do mundo cobiçamos tudo” [11]) e própria de uma boca/estômago (“uma boca escancarada como um vaso” [11]), dentada (“exercemos os dentes que nos crescem no focinho triangular” [10]) e provida de uma língua (animal com patas [19]), “torcida” (de carne, como a de Heathcliff) e “bífida” (“langue à double fil”, Valéry), que devora a fauna do ar (“E o vermelho da língua arrebata a candura dos insectos/ torcida como um velho papel onde se marcou a hora do prodígio” [10]).Não encontramos aqui, assim, a “aura” de uma concepção de poesia com “asas ou pêlo para a sedução”[14] mas antes uma poética rasteira (“que podemos, nós, rasteiros?” [11]), ao rés da lama e não da “alma” (13), primitiva e bárbara (“um modo antigo e barbaridade” [11]), que pode revelar-se o lugar comum de um “festim canibal” (13), sinestésico e poético (Eugène Savitskaya). 
Neste campo agreste mas pujante de palavras, a que corresponde uma “ética plana do despojado” (34), aderente ao rigor do terreno (33/34), das “formas mínimas” (“os modos de ser inferior, perto dos besouros e das formigas” [31]) e dos “mínimos pulsantes” [34])[4], a “metáfora”, como a “maçã” intocada, degrada-se (“tudo tocado”, [11]), integrando uma gestação/floração carnal e venenosa (“a nossa carne rebenta igual às flores nas árvores” [10]) que sorve (engole e regurgita) todo o real: “o ar é nosso regozijo/ tudo apanhamos. Até os séculos./ Por isso nossa boca escancara, /catando ventos e algum alívio” (12). 

3. Animais de Sangue Frio, como o nome indica, é um livro escrito do ponto de vista daserpente (o sujeito de enunciação muda de uma forma/figura predominantemente feminina [Cisco] para uma 3ª pessoa do plural [1ª secção] ou do neutro masculino): a voix “dans la verdure”, “bête aiguë” (Valéry) que nos fala de um “abismo animal” resultante da “queda” e que constitui um princípio ao mesmo tempo de “metamorfose”[5] e de “horror” (ira luciferina, [55]) pelo “criado” (“mundo que nunca benquis” [31]).Este é um discurso portanto de um “anjo rebelde” (Byron) ou “animal carnívoro” que diz não (“fora do eixo,/ não acerto” [41]), que expõe o “nada” da criação e que afirma, se confunde, com o projecto de uma contra-criação. 
Deste modo, encontramos nesta selva ou emaranhado de formas e de palavras tanto a antropomorfização do natural como a bestialização do humano, produzindo-se desse escândalo (“proeza de criação”[22]) novos seres, formas híbridas de síntese, monstros em que não só se processa a confusão de géneros ou espécies (se perde a noção de “identidade”: “não sou nada, não coincido/ com o que pretendem de mim” (41), como eles, por si, constituem um laboratório experimental de “formas” (“Num instante concretizo-me./ Depois, pouco a pouco, retorno ao ágil tormento” [39]), ao fim e ao cabo, toda uma “ciência nova” (Dante/ Valéry) ligada à procura do “desconhecido” (19, 21).O livro, assim, ele próprio um novo corpo=espécie, orgânico=inorgânico (mas sempre “monstruoso”, como o queriam os românticos), abre-se, desdobra-se e constrói-se, oferecendo (-nos) o “delírio” (“júbilo”[13]) do espectáculo de umacontra-criação que gera, aos nossos olhos estarrecidos, um novo mundo (“a possibilidade de gerar/ um sítio”[32]): o “contra-relevo” do materialismo do baixo (o de um materialismo sem ontologia e de uma fenomenologia perversa, a que se refere Bataille)[6], cujos principais instrumentos são o riso (de uma “boca escancara[da]” no ar [12 (26, 35)]) e o informe (de modos de ser “invertebrados”, “inferiores”[31]) afinal em consonância com o estado pânico, anárquico e genésico de tudo.Corresponde-lhe um discurso da “não-forma” e do “informe” (no sentido, ainda, de Bataille)[7] tanto no plano da violentação do semântico pelo sonoro (o “coaxar” da língua [13]: “Este acerto de linguagem e de ruídos, como o ch, o argh, um grande S” [72]), como, no plano figural do “monstruoso” (das “formas”/pulsares, mínimas e máximos, dessa materialidade), uma corrente (lava) de formas-palavras enervadas por um saber do abismo (ventre) e do feio (na linha do Grotesco de V. Hugo), todo ele feito de nós/aglomerados (40) de uma matéria feliz que se contorce (25, 39), ostentando a novidade da sua forma (55). “Serei grotesco ou feio” (40), “serei obrigado a assumir a minha fealdade” (70), rejubila a voz enunciativa do livro.Enquanto “volume”, arquitectura (escultura) de nervos e terra, a sua matéria figural transfigura-se e assombra-se com aquilo de que é capaz (a sua engenharia orgânica, poética) (41) e, levada no “frémito” (delírio) dos seus movimentos (“da cauda ao lábio atravessa-os o movimento,/ a gana, o ardil nos olhos esbugalhados” [25]), pelo salto (27) e pela “dança” (“o júbilo de experimentar a curvatura” [26]), eleva-se e despega-se do solo (“ser quase/ e apenas uma linha de ar” [39]) ou então, percorrida/atravessada pela metamorfose das “formas” e “géneros” (seguindo o lema de Empédocles: “E, se me encontrarem, serei polígono, pétala, caco” [73]), granula-se e transmigra-se cineticamente pela luz (25) (com efeito, há um princípio/dispositivo de cinema contido no próprio trabalho interno da matéria [61]) até se dissipar como “pólen” (“o único deus verdadeiro/ é o estremecimento, a força, ou, se quiserem, o pólen” [41]) no pulsar do cosmos (35). 
Na linha do romantismo (negro) inglês (dos “grandes poemas metafísicos” de Byron [Cain] e Shelley [o soneto “Ozymandias”]), a poesia (poesis) pela declinação do animalesco (“Uma pluralidade de modos,/ posições, estratégias, sons e movimentos inauditos” [72]) afirma-se como o “orgão gerador” (“o grande deus das formas” [65]; talvez um Dionisio-Proteu) de umanova beleza (monstruosa, sim, e mesmo inumana) (vd. última secção «Dos Novos») que, com a sua “claridade negra de presença” (65), não só “[introduza] atrito na transparência” (71) como proclame a nova ordem, (“Esforço palavras que não tinha”[72]) de uma “estranheza/sem concessões e absolutamente real” (63). 
E, então, sim, faz todo o sentido a promessa do verso “Imaginamos tomar o chão” (11) e sermos “felizes” com isso: “Poderão cortar-me a cauda, mas, vejam, sucedo novo” (69).  
 (Junho/2017)  




[1] A figura da “mulher-serpente”, Eva sem plumas, surgia já em Cisco como “pele que dobra/ mordendo (…) o fio do corpo”(33): figura já da “queda”, ligada à lei da gravidade e à “perda da aura” (a queda dos “frutos”) e, portanto, à “força da evocação [da] terra” (ibidem).
[2] Talvez o Rodin dos escombros de La Porte de l’Enfer, projecto em que trabalhou entre 1880 e 1889 e depois retocou, deixando-o incompleto até ao fim da vida.
[3] Pense-se também na epígrafe de Manoel de Barros em Cisco: “Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, teréns de rua e de música, cisco de olho, moscas de pensão…”.
[4] Um saber cruel e rigoroso (“como um movimento rigoroso” [13]) que se eleva a partir de baixo, de acordo com o que Bataille designa por “materialidade do baixo”, que toma “la matière comme le principe actif: un principe horrible et parfaitement illégitime” de “une baisseur qui ne serait pas réductible” (G. Bataille, “Le bas matèrialisme et la gnose” [1930], Documents, Mercure de France, 1968, [100-101].
[5] “Un besoin violent, se confondant d’ailleurs avec chacun de nos besoins animaux, excitant un homme à se départir tout à coup des gestes et des attitudes exigées par la nature humaine”, escreve Bataille no mesmo texto.
[6] “La matière basse est extérieure et étrangère aux aspirations idéales humaines et refuse de se laisser réduire aux grandes machines ontologiques résultant de ces aspirations”, comenta ainda Bataille (102/103).
[7] Na entrada “Informe” de Dictionnaire Critique (1930), Bataille escreve: “Affirmer que l’univers ne ressemble à rien et n’est qu’informe revient à dire que l’univers est quelque chose comme une araignée ou un crachat” (178).


António Reis, reedição de "Poemas Quotidianos", Tinta-da-China



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sexta-feira, julho 07, 2017

"Paterson", Jim Jarmusch / William Carlos Williams



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quinta-feira, julho 06, 2017


A narrativa, por fim, prefere ver-nos de costas. Uma noite arrisca: põe as fronteiras que atravessamos inseguros, sem documentos, meio estrangeiros, "as vozes simples como ventos", a olharmos de volta desde os confins do idioma. Toda a inspiração parece fútil agora e não a trocávamos pelo ritmo. A título de exemplo: em tempos um persa escreveu coisas maravilhosas sobre a embriaguez, mas nada afinal que se compare a esse puro terror estéril, o de uns poucos versos realmente confusos, de onde nenhuma figura sai. Só fantasmas. As próprias letras parecem trôpegas, turvam o olhar. Com quantas mãos uma só linha? Como a beleza de um verso assim faz tremer a terra inteira. E o esforço depois para levantar-se do lugar onde dormimos apenas uma vez, coser de volta a sombra ao corpo – quantos dias para despertar? A sensação de que uma sirene rasga a carne para que um navio morto a atravesse. E as noites depois: o colchão infectado em que tudo nos morde. Sim, sim. Já fizeste as voltas – "três gotas de valeriana, um copo de água de rosas" –, nada serve. Os sonhos já não são só nossos... Como ver chegar o que nos mata. Não, certamente, não queres envolver mais ninguém nisto. Foi já longe demais. Gente que sabe o teu nome, se serve dele como moeda para o cara ou coroa. Pagaste o preço – paguei dez vezes para dizer o que disse, mas observo as coisas à distância por vezes, desde uma espantosa pausa... faz um frio desgraçado. A minha vida, estes erros todos, tão esmerados. Tudo o que se aproveitou do curso do sangue. E acho que não teria paciência para recomeçar de novo. Se voltasse, abatia a paixão como a um cão nas traseiras disto. Tirava as luvas, atirava-as fora, e seguia como se nada me fizesse já a menor diferença.

quarta-feira, julho 05, 2017

Prémio Literário UCCLA para "Diário de Cão", de Thiago Rodrigues Braga




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Sobre "Baixo Contínuo" e "A margem de um livro", de Rui Nunes




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Rui Nunes carrega a consciência de uma segunda geração das vítimas dos genocídios, dos filhos que tiveram de aprender a falar a partir do silêncio dos pais, e que se tornaram eternas testemunhas de acusação 
A perda confunde-se com o verdadeiro e, talvez, até único momento de posse. A sua dolorosa contradição faz-nos muitas vezes senti-la como um triunfo, já que nunca antes nos foi dada a hipótese de sentir a diferença que uma coisa, uma presença ou um estado nos traz. “Quando os sons se apagam, é que se ouve melhor”, nota Rui Nunes, em “Baixo Contínuo”. O rapto de uma sensação pode significar menos uma violência do que um singular momento de compreensão e clareza, há nele um transe extático, no duplo sentido sonoro em que provoca um êxtase e, na mesma medida, parece alterar a relação do tempo, imobilizando-o.
O vigor de uma impressão raramente é tão forte como nesse instante em que algo nos diz que começou a esvanecer-se, num processo irrecuperável. É aí que a memória entra em campo e se dá conta do que será impossível às suas faculdades de reconstituição. A uma página do fim de “A margem de um livro”, o outro título que Rui Nunes acaba de publicar, diz como a cegueira não passa por um corte gradual na luz, mas que há uma transformação daquilo que se vê. “O que vejo é o estremecimento de uma mancha: sou um cão pisteiro.”
Entre aquilo que falha e o modo de compensar-se, quando os outros sentidos ocupam o espaço de algo que chamou mais cedo o vazio, a sensação que fica não é apenas a de os olhos já não verem, mas a de uma morte percutida: “Nunca mais. Ou. O que vêem é. Que nunca mais. Anunciam manchas. Anunciam o seu desaparecimento. Por fim, nem a mancha.” E fecha assim o parêntesis em que tenta traduzir a sensação do que é perder o mais imediato, constante e, por vezes, esgotante dos sentidos. Aquele com que os restantes parecem bater-se, na hierarquia que domina as impressões. Este sentido que às vezes nos preenche tão avassaladoramente que quase nos derruba, pouca margem deixando para impressões que o contradigam. De tal modo que o pensamento muitas vezes parece simplesmente uma máquina de fazer legendas, tentando não tropeçar face ao ritmo em que pinga ao longe e ao perto o mundo, explodindo em visões.
A literatura, como a generalidade das artes, no consumo meio desalmado que hoje nos é imposto e a que nos submetemos, elegeu como princípio organizador a narrativa. Assim, Rui Nunes participa do lado de fora, como um desordeiro, um vândalo quebrando os vidros, os vasos, um homem do saco que surge malvisto, um exemplo para completar o aviso, ameaçar com castigo as criancinhas à mesa, na hora em que recebem as boas lições atrás do prato da sopa. Levamos décadas já do divórcio que vai entre os integrados e os autores que há muito deixaram de ir até à linha, de dar para o peditório das estorinhas. E Rui Nunes foi dos que mais malcriadamente se pôs à margem da fila, não nessa espécie de piquete de greve dos candidatos a malditos, mas realmente de costas, recolhendo no seu saco os objectos do desuso desta época, a sua opulência de dejectos, corpos desconjuntados... (“Como se tece um fio por entre destroços? Como tecem os destroços um fio?”) À entrada de “Baixo Contínuo”, uma inscrição remete-nos para outra ordem de princípios: “A desintegração da melodia/ A desintegração do corpo/ A desintegração da palavra”.
Neste país há coisas que são giras (vá lá)... No “convidativo tamborilar de circunstância” que se desencadeou com vista a celebrar Raul Brandão – neste ricto normalmente pobre ou, se passou tempo suficiente, faustoso, quando o cadáver já nem de um peido é capaz, as efemérides vão engordando e começa a “reparação atormentada” –, os 150 anos do nascimento do génio não foram, no entanto, suficientes para que alguém arriscasse atribuir-lhe uma linhagem descendente. Teria sido bom perceber como o “desvio de onanismo parasitário em que o milieu das letras se deleita” (já é a terceira citação de um só parágrafo do Pacheco neste meu[?]), não ficou margem a esse tipo de justiça a um autor feito por aqueles que, chegados depois, lhe fizeram a homenagem de o terem acolhido como incontornável influência. Ora, à cabeça ou, pelo menos, ao ombro de qualquer lista que se quisesse fazer, teria de encontrar-se o nome de Rui Nunes, que não foi tido nem achado enquanto Guimarães fazia as celebrações de Raul Brandão com os macacos que mais alto trepam a árvore do hábito.
Voltando ao que interessa, Rui Nunes tem nestes dois mais recentes capítulos da sua obra – que, se parecia ameaçada por o autor ter caído na escuridão, ao ponto de não ser mais capaz de ler sequer a mais garrafal das suas letras, continuou a desenhar-se no escuro, agarrada à corda da memória, sendo-lhe lidos mais tarde os estragos que fizera – mais alguns passos num trabalho de vigilância e denúncia, em muito marcado pela aguda consciência de que é do Homem de quem podemos esperar o pior. Depois de Auschwitz não é que já não se possa escrever poesia, mas que a poesia deve despedir-se tão cedo quanto possível de todos os quadros de falsa pureza e razões idílicas, para se apegar ao que restar de amável na humanidade depois da sua execração. E esta é uma obra que está agora realmente num limite de forças, num estado exasperado daquele sufoco existencial com que tínhamos já sido confrontados nos momentos mais angustiados do autor de “Húmus”.
Fortemente implicada numa mais afectada reflexão da actualidade e da própria crise e tensão que significa reunir os estilhaços de um momento contemporâneo, a obra de Rui Nunes rejeita a superfície, e cose-se num nível em que cada um dos elementos que participam na sua materialização da linguagem estão sensíveis, feridos e frágeis tanto como truculentos. Não lhe cabendo sequer a assistência das frases que escreveu antes, o escritor fez-se acompanhar de um gangue requintado de gente que faz barulho nos andares de cima, para os velhos que pousavam a agulha como aviso para a morte de que faltava pouco, mas ainda assim o mais difícil: J. S. Bach, Beethoven, Boulez e Stockhausen. A música atonal vai aqui impor outro firmamento, furos nesse manto negro sobre as nossas cabeças, estrelas para alguém que não busca uma direcção mas empreende uma escavação através dessa vertigem da qual não há regresso.
Como esses autores de deuses que já não lá estão apenas para nos servirem de cúmplices morais, para nos perdoarem, mas que antes nos falam numa língua de sublime juízo, o escritor busca a instrução rítmica de impulsos como o da fome, a força de “um som que cria a sua raiz, que é único. Interminável. Uma pedra a bater.” Esse som único que “vibra até se tornar íntimo, até mostrar a névoa da sua intimidade”. E Rui Nunes deixa claro que uma escrita assim não é outra dessas criações para agradar a um treinado apetite estético. Numa obra feita de fenómenos de transfiguração, que se faz valer de “sons em desequilíbrio”, não se trata aqui de gostar. “Gostas muito de Karlheinz? Ninguém gosta de Karlheinz, é outra coisa.”
É outra coisa esta escrita. E tanto num livro como no outro – o primeiro denotando formalmente um parentesco com a prosa, que sempre vai atraiçoando, por levantar as maiores barreiras à fluência, e o segundo mais denunciado na sua concentração poética –, os dois deixam claro como Rui Nunes está muito sozinho entre nós, e especificamente neste tempo, numa actuação que, para lá da desobediência, o coloca do lado do Mal, no esforço de evidenciá-lo.
O Mal que continua a ser um tabu absoluto na nossa literatura e desde as desumanidades que afinal se encontram no íntimo das nossas sociedades quando esta actuou inspirada pela paixão das suas convicções. Não o mal nas intenções ou sequer nos actos, mas como natureza inescapável, na forma como respira, como põe os olhos no mundo, começa a raciocinar. Rui Nunes é, nesse sentido, o oposto de um ilusionista. A sua escrita avilta, inventa o discurso que torna natural o processo de maldades sobre os quais alegamos sempre essa incompreensão terrível. Apresenta-nos a nós, os sempre presumidos inocentes, à obra secreta dos nossos comportamentos, ao vício de consequências para as quais criámos uma cegueira à medida da inconsciência que nos serve de álibi. “Leio o que lá não está, ou o que talvez não esteja. E que texto é este? Que deformidade? Leio a minha própria deformidade. Não sou eu quem lê, são os meus olhos: eu sou tudo o que sobra deles. Lêem a sua anomalia, cegam uma ou outra palavra, transformam uma ou outra letra, desviam: e o texto fica grotesco. É uma doença que o escreve. Porque há os olhos e o mal que há neles. Há portanto uma guerra: a do sentido contra a insensatez. Mas a insensatez, por vezes, é a fracção mínima de um desvendamento.”

domingo, julho 02, 2017

língua morta 076



OS NOMES DOS PÁSSAROS,
de António Amaral Tavares,
capa a partir de pintura de Gustave Doré

 [250 exemplares, 110 pp., 10€]

quarta-feira, junho 28, 2017


Soube bem bater-lhe como trincar o fruto mais velho, uma ameixa, ao contrário da crença popular, tê-la encontrado na famosa viela, por onde se metem quando, por um segundo, o destino não lhes importa, não é desleixo mas paixão da inconsciência, se chama puta às tempestades, se manda os anjos à merda, tão escuro e afastado que nem a deus chegaria um rumor, tão fundo que dava para matá-la sem sentir remorsos, o corpo desconjuntado numa operação entre a fúria e a delicadeza, a mesma paciência desfazendo como aquela que se usa para montar um puzzle, e, naturalmente, havia uma porrada de testemunhas, cães como nós, cada um escavara o seu buraco para ver como se sentem os ossos, ultrapassar a carne, os punhos colados, bater para magoar todos os envolvidos, ver-lhe o fantasma no rosto, as marcas primorosas nos membros, sinais de uma tão débil luta, e a luz atravessada, ouvindo-lhe o pulso e imaginando-se a ler os jornais do dia seguinte, a tosca, quase artística obscenidade das fotografias, o modo subtil de ferir susceptibilidades, queria ajudar os repórteres, plantar a semente para a flor mais escabrosa, abrir fendas por onde o flash pudesse ir mais longe nos seus estudos de anatomia, soube bem tê-la seguido, esse convite feito a um monstro, saber que não podíamos absolutamente decepcioná-la, afastarmo-nos um pouco de nós para que o inferno nos conduza, a humidade e o frescor do sangue usando o perfume dela, um arbusto usando os sapatos como brincos, soube bem ir até ao fim, sair de quatro das sombras e sentir que trocáramos de forma com os lobos, a gozar a calma de ter contentado a natureza, o ar da noite assobiando por uma ferida no lábio, soube-lhe melhor talvez a ela, descansando daquela superioridade moral toda, acabar feita um resto, desfigurada para lá de qualquer semelhança consigo, qualquer sinal que um familiar pudesse identificar, há muito que a beleza natural se via forçada, pedindo piedade do espelho da luz, mas assim, os que a viram uma só vez reconstituíram outra coisa, quem a desejou sequer ordinariamente sentiu ter perdido uma parte de si, um amor, os que a foderam, de sentirem-se sujos, agora tinham a tentação de um abraço, apóstolos de uma revelação tão incerta.