domingo, dezembro 10, 2017

"Macbeth", com encenação de Nuno Carinhas



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quarta-feira, dezembro 06, 2017

145 Poemas, Konstantinos Kaváfis, edição Flop, com apresentação e tradução de Manuel Resende




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língua morta 079



LITERATURA, DEFESA DO ATRITO,
de Silvina Rodrigues Lopes
(reedição do livro publicado originalmente
pelas Edições Vendaval, em 2003)

[300 exemplares, 170 pp., 11€]

quinta-feira, novembro 30, 2017

Man carrying thing


The poem must resist the intelligence
Almost successfully. Illustration:

A brune figure in winter evening resists
Identity. The thing he carries resists

The most necessitous sense. Accept them, then,
As secondary (parts not quite perceived

Of the obvious whole, uncertain particles
Of the certain solid, the primary free from doubt,

Things floating like the first hundred flakes of snow
Out of a storm we must endure all night,

Out of a storm of secondary things),
A horror of thoughts that suddenly are real.

We must endure our thoughts all night, until
The bright obvious stands motionless in cold.

- Wallace Stevens

Adam Jagajewski, "Sombras de sombras", Tinta-da-China



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domingo, novembro 26, 2017




estourado de ajudar a fantasia
com as mudanças, senta-se perto
toca-lhe a boca, a carne, deixa-a bêbada
como se abrisse um lenço
passa-lha para a mão e o assunto agora
é dos dois
as reticências, que bom, um bando
de estorninhos contornando o quarto

ao canto deixa uma maçã a apodrecer
abrindo uma porta, sai
caçador inspirado raspando flechas
que fazem curvas
fodeu e vem-se vestindo desde casa dela
som de riso nos passos, tontura coçada
marcas de pegadas e batom, bagos
de romã nos bolsos, asmático
da bulha entre aromas, arrota colibris

no tempo em que me escondia era isto
hoje já cruzo as mãos, é verdade
põem-me as algemas sempre que destrono o tédio
e me refiro àqueles poucos dias
enfiam-me numa sala com certa fundura de águas
que querem que lhes diga? que o fogo
começou no vestido dela, que já de si
a casa tinha por hábito deixar-se consumir
em chamas, confesso porra, eu assino merda
que a visitei caninamente
desci e subi o corpo penhasco
e mesmo se não ia, estava com os filhos
o marido, andei como o vento
pelos jardins a cheirar-lhe a roupa interior
vielas guardadas por gatos
compondo a noite em voz alta
caracteres móveis, as oito luas fatais rondando
garrafão, funil e o cosmos numa velha tipografia
tinha tempo, ia ver quanto me levava
trabalho para quantas abelhas? assim
daqui por uns anos tudo ainda
há-de dizer-lhe coisas, cobri-la de pássaros
tanto que a cerque e ainda sirva
de leitura para os astros

sexta-feira, novembro 24, 2017

Vitor Silva Tavares, "Textinhos, intróitos e etc", Pianola



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Os barulhos que ouves são meus
investindo com toda esta carcaça
nos fundos, pelos séculos, uma dor
ao acordar de qualquer sonho
e olhando em volta, estimo os danos

a eternidade que vos entusiasma tanto
trocava-a por uma cerveja fresca
numa tarde que ardesse com cem sóis,
eu que nem gosto de cerveja,
que fico a ver-nos de volta
das sobras de uma ode
como essa bala-mosca de roda
das nossas cabeças não sei
se dentro se fora

as mãos torcidas, pontas dos dedos
queimadas, de tanto puxar a linha,
e se me perguntas o que acho,
há muito que devíamos
ter livrado os versos da tortura da beleza
fria, forçada
prefiro as passadas de loucos,
essas migalhas que denunciam o caminho
daqui até ao outro mundo

enterra a língua e volta anos depois
para saber o que escapou ao apetite dos vermes,
aos poucos assim aprenderemos
a deixar versos como ossos,
e mesmo jardins desses onde se dissolvam
os velhos encostados a torsos mutilados
onde a cidade timidamente se
entorne e se te apetecer faz florir
ali no largo as cerejeiras do Japão

o guarda da floresta sabe o que lias
longe dos outros, depois da escola,
nem que tenhamos de voltar lá:
Verne, Stevenson, Dumas

sei bem o que é esperar a noite
o quarto, um capítulo rasgado do inferno,
por obsceno, raivoso
(se visses as minhas notas
antes de limar as unhas ao poema)
e ali um velho ouvindo do horror
confissões capazes de romper-vos uma veia

enciumado, imaginando que chegarás tarde
lendo até à embriaguez e de manhã,
ao acordar, cuspimos os dentes de outros
poetas para a pia

a mim, já nenhum som me importa
oiço outras coisas, na cabeça
uma orquestra fica de serviço
aos meus exageros como à suave
insanidade de chinelos
no andar de cima

aperto na boca o gatilho
aguardando a noite em que te canses
e me deixes uma bala no tambor
isso e um bilhete indecoroso
antes de te vestires de luto

olho para o lado a flor
bebendo o escuro, pousando
a cabeça na tua saia, ao canto,
como um trapo com que enxaguei
o vinho derramado no chão
fico ali, amolecendo às claras,
enquanto não te vens deitar
e apago a luz de uma estrela decrépita
que, junto à cama, nos serve de candeeiro

segunda-feira, novembro 20, 2017



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sexta-feira, novembro 17, 2017



Queria uma vida negra
o mal dito bem devagar, recuando
para vir lembrar duas coisas ou três
com os dentes cuspidos apanhados do chão
um silêncio de torre altíssima
a fazer-lhes pontaria
e despenhar-me como um trovão

a guerra no quarto de chávena e roupão
o relógio cortando fiambre das horas
depois de ter almoçado o cuco
a cadeira ali muito quieta
como se estivesse amarrada
e o espaço agredido cinquenta anos
de cela, conversas dos dois lados
um soluço com uma gaiola só para ele
móveis guardando segredos e dores
de árvores imundas
uma fotografia gasta pelos olhares
dos rapazes em fila e pijama às riscas
o arquivo das confissões à força
de insectos ratos e até bichos
à margem dos dicionários

faço um gesto lento e curvo
como a aurora sobre a Terra
grito viagem, do nada, e oiço-a
fazer-me as malas sobre a cama
um comboio parte dali mesmo
a toda a pressa
e ainda antes do acidente
vultos lançam-se de telhado para telhado
enquanto a cidade se reúne à volta

certo café belo e perdido
em que a espera nos fez elegantes
para onde envio ainda cópia
de todas as cartas
onde vi rostos que só de rodar
seguindo alguém se transformavam
onde à hora que pedíssemos anoitecia
setas desferidas, de tão reescritos
debaixo dos versos
havia garras de gerações de rouxinóis
e dar com aquilo era sempre
tomando outro caminho
ninguém se perdia até a memória deixar
de escoltar-nos, o sangue mais escuro
os poderes abandonados
a própria loucura recuando

de corda ao pescoço passei um último dia
perto do lugar onde dormem os enforcados
o que sonhavam também sonhei
atirado do alto de mim abaixo
raspei os astros do fundo
onde os ecos caçam para se alimentar
esfrego os olhos, conto os reinos um a um
erguendo a candeia dos renegados
escrevo a essa luz um som descendo
as escadas, queda tão livre
como lenta ao poço de água limpa
onde flutuam os cabelos
um vestido despe-se sozinho
e um perfume ainda chora por ela

quarta-feira, novembro 15, 2017


Há semana e meia saltando de sonhos
em movimento para rabiscar umas frases,
um xis no mapa,
a direcção para o ouro,
e às tantas já não passo,
fico deste lado, de mãos nos joelhos,
a soprar os meus moinhos,
coisas absortas e sonolentas,
livros, papéis, fortificações ridículas.

Apago e acendo a luz, continuo só.

No abafo da fadiga vejo crescerem
musgos e bolores brilhando
na penumbra.
Movimentos no fundo,
ausências cada vez mais familiares.

A sombra deu em doida,
escangalha-me os relógios,
alimenta-se das tripas e agoniza
pelos cantos,
dorme com o teu vestido.

À cabeceira, enfiado numa caixa de fósforos,
um bicho afina para mim
a melodia do mundo,
dá-me corda, um ritmo, esse nó-corredio
que me desce ao poço.

Na caixa, deixo uma nesga
para que olhe comigo o tecto
e onde lhe deito as moscas
que me mordem.

Desvio as cortinas, longe
ouço vibrar uma tempestade.
Um cão de guarda às miragens ladra
alinhando o horizonte,
anima-me, faz-me descer
para a ideia de andar doce por aí
a roubar as tardes,
os bolsos largando nêsperas
e a luz desassossegando o reino.

Se chove,
a chuva enche as flores
deixa-as tombar largando
esse perfume de dilúvio
pelos declives açucarados
que levam aos espaços de recreio,

fontes, chafarizes,
as estátuas segurando a corda da roupa
e da pardalada,
junto com o mobiliário abandonado
de que o jardim se apropriou.

Um sofá de pulgas
e um televisor com o ecrã arrancado
ao pontapé, enquadra um plano soberbo
deste fim de tarde.

Ando mais devagar, encho a rua
de solidão,

vejo-a descer, retocando-se –
a noite, mulata endiabrada
trocando beijos.
Vou no encalço,
sigo os meus sonâmbulos
para os lados do seja-o-que-deus-quiser.

Pus baixinho o coração, frio,
noite inteira a ouvir uma e outra vez
as mesmas histórias,
por favor a um mundo acabado.

Virando as páginas ao jornalzinho
da eternidade, tirei uns versos,
o pouco de realidade e esta sensação
de permanência que nos faz ganhar raízes,
ancorar nestes lugares infectos
até ao gole radioso.

O barulho do fósforo rasgou um
suspiro à luz vesga que nos ilustra.
Colagens, cigarros, vastas pausas
na moleza de gestos sem osso,
rodando o copo –
pequeno coreto onde dançam
para essas canções redondas que o peito geme,
cansados, trôpegos reflexos.

Então,
metem-se-nos ao caminho
umas tipas sem rosto
adivinhando a nossa sorte,
facilitando o azar.

Demorou mas saí
oferecendo explicações à paisagem,
fundos de ruas malcheirosas,
ecos sem saída,
flores aos ombros umas das outras
nesses canteiros
onde o que mais bebem é mijo.
Como elas, sou levado em ombros.
Os meus fantasmas todos cantando.

Como explico isto,
a alegria de ir pela vida fugido,
fazer parte do coro
mijando às portas da alvorada.

"Poesia", de Eugénio de Andrade



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terça-feira, novembro 14, 2017

Entrevista a Germano Almeida



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segunda-feira, novembro 13, 2017


Um estado de exaltação nervosa, estudando as saídas, o horizonte esfrangalhado, como se antecipasse uma chegada transformadora, uma lança perfurando num golpe de força antiga esse cruzamento de sensibilidades, neste corpo de desencontros, com as suas variações domésticas, uma música não completamente coincidente, que faz estremecer tudo no seu lugar, os objectos parecem valsar uns passos além dos seus contornos, deitar-nos um olhar lânguido, mas se os focamos logo se recosem, despem o vestido que ainda há pouco era todo um salão de baile, e da nossa tontura vienense caímos de volta nesta luz aberta à faca, com vista sobre o rio, tristes margens de perfis industriais. A continuidade é um desgosto, só um livro despedaçado, um romance que corresponda a este estado de quem se sente atravessar as suas formas, diluir-se por uma incapacidade de preservar a sua identidade, o homem que levanta um copo para beber mas se confunde com o líquido, tremem-lhe os lábios, não consegue engolir esse gole de uma água que em vagas na boca ganha o sabor de um silêncio garganteado, como se tivera entre os dentes os corpos de coisas que ia dizer mas desistiu. É difícil levantar-se de si, e pior, quando te olhas já estás uns passos além, talvez por isso um baralho de cartas com figuras expressando-se por signos enquanto dançam no intervalo das nossas incertezas seja capaz de ganhar ao talento das mãos para gerir acasos, um livre arbítrio, fazer gestos imprevisíveis até para quem as comanda, como se entre cada coisa que lhes exigimos, e a que obedecem com a maior servileza, tirassem algo para si, um tique delas, uma vénia ao imprevisto, e é possível que com algo variável nas mãos, esse ritmo de acasos construa uma leitura enleante, não fossem as minhas, contudo, dessas que usam de excessiva delicadeza, para logo que se lhes retira o açaime se porem a dobrar, esgarçar, a cheirar uma falha que permita romper, rasgar, destruir, e tantas vezes no próprio rosto, noutra parte do corpo, passam vigilantes como gatos e perdem o juízo como cães, buscam algo fora do lugar, uma saliência, e de uma imperfeição mínima armam um cerco, ferem, fazem a morte por mil cortes, e tê-las assim, em cima a vida inteira, sobreviver-lhes, talvez isso explique o nervoso, o de um ser por si mesmo acossado.