quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Unabomber



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

Alexandre O'Neill, "E a minha festa de homenagem?", Tinta da China, recensão crítica de Teresa Carvalho



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Ramiro S. Osório, "Ao Largo de Delos", Companhia das Ilhas



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sábado, fevereiro 17, 2018





Que vergonha sem nome me traz
que corpo indo ao fundo, puxou com ele
a época, e o que me diz esta doce agonia
quando o riacho toca violino
além de que ninguém mais bebeu dele
eu bebo o meu gole, sei-me ferido
de uma morte natural, o chato é que
não aprendi nada, não sofro
tão belamente quanto os demais
é sórdido aqui, a cama assusta, desce-se
pelas escadas de um arrepio, aquilo deu
em escavação arqueológica e eu
múmia lá em baixo nuns trapos mijados
as eras zumbindo à cabeceira
um frasco de trevas mexendo
asas, livros, as voltas de um vento-fera
que eu acirrava com um pau
é um teatro o escuro, acelerado
o público há-de esconder o rosto morto
e que se ofenda à vontade agora,
de joelhos, benza-se, à minha mercê
ou se revolte puxe fogo, mas arda,
já aqueço o meu pote nessas chamas,
faço planos em cima disso,
das cinzas dele crescerão outras flores
o galo rodando a cena grita e consegue
o ouvido de cada pedra daqui
até à antiguidade (os clássicos todos
sentindo o fio puxado por um novo dia)
conto com forças lá de trás, instintos,
corpos inventando-se, tudo cozinhado
no lume de um gozo lento, fornicação
filho de um embate imundo nasço ainda
nessa noite em que eles se vestiam
um brilho suado com os passos
erguendo da terra a humidade
a luz ficando fraca, entre as ervas altas
ritmos caçavam, o sol guinou, eram as sete
ou oito, os passos soltos, a rua tão dispersa
que uma hora depois me achava reunido
a fome como minha única medida
e temperei-a com o sal e o nervo
dos grandes mares, escutando no porto
canções de barco que me levaram rumo ao Leste,
os campos de batalha esperavam
com marcações onde devíamos cair, sangrar
e nem sei em nome de quê, porque cobríamos
a terra dessa malha negra de últimos fôlegos
mal dei pela vida, e no momento final vi
um mosquito bêbedo trocar um olhar
com a eternidade, num pasmo
coberto pela seiva que me escorria pelo verso.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Se eu fosse...


Se eu fosse paneleiro — na verdade, ninguém pode garantir que eu não seja, não tenha sido ou não venha a ser — e ocupasse um cargo político nunca aceitaria o protocolo da confissão, dizer o que se é àqueles que o não são. Não para manter o “segredo”, mas para não me submeter à regra da autentificação pelo discurso da verdade, tão aplaudido pelos que acham que a sua verdade é diariamente autentificada pelas evidências. Se eu fosse paneleiro — para usar uma forma especulativa que pode referir-se ou não a um estado de facto — também amaldiçoaria o dia em que, por palavras ou actos, me deixasse sujeitar pelo discurso odioso dos que descobriram que o seu alto teor de aceitação da homossexualidade é uma marca de distinção — de modernidade, de progressismo, de “estilo” — e um capital cultural para ser exibido publicamente, sobretudo quando lhes é oferecido o exemplo do homossexual bonzinho e ao serviço da homonormatividade, o amigo gay que todos temos. Se eu fosse paneleiro — e, dizendo isto, não estarei já a inscrever-me numa “homossexualidade molecular”? — o que eu não riria da homofilia editorial do Expresso, que anunciava a “confissão” do dirigente do CDS como uma notícia que não devia ser notícia mas que ainda tem de ser notícia. O que se pode ler nesta fórmula retorcida é que obter de alguém a afirmação “eu sou gay” merece sempre uma nota editorial, que é a notícia da notícia, ou a notícia que reflecte sobre si própria para dizer que aquilo só é notícia para alguns atrasados, ignorantes e preconceituosos que a vão tratar como tal, apesar de ela ser feita por quem acha que não devia ali haver notícia alguma. É notícia porque “o mundo é o que é, o país é o que é, a sociedade em que estamos inseridos é o que é”, reafirma um jornalista noutra página do mesmo jornal, também a propósito de Adolfo Mesquita Nunes. Se eu fosse paneleiro e pleno de perfídia — hoje, contraí um apego aos atributos que começam por “p” — diria gentilmente ao simpático autor desta proposição lógica que aquilo a que os franceses chamam “bêtise” (e que eu não vou traduzir por “estupidez” porque seria uma tradução pouco correcta e indelicada para o visado), pode ser exemplificado — dizem os tratados sobre tal matéria — pelo uso abusivo e hiperbólico do princípio da identidade, exibindo-o de maneira peremptória, como na frase “O mundo é o que é, o país é o que é”. E o que é um gay hoje, daqueles que fazem os jornais, as revistas e as televisões olharem para si próprios com orgulho por estarem tão à frente do país que “é o que é”? É uma marca, uma sexualidade branca ou um turista do sexo, conforme a um modelo unissexual. Se eu fosse paneleiro e político — malditos “pês”, que afluem como em hora de ponta, salvo seja — ficaria sempre calado para não ser transformado num estereótipo do homossexual de Estado, a não ser que aspirasse precisamente a essa condição. O que o Expresso revelava este fim de semana como uma verdade de primeira página é afinal uma mentira: Adolfo Mesquita Nunes não assumiu nada porque também não há nada a dissimular, não mostrou nada porque já não há nada a mostrar. O único objectivo que alcançou foi ter deixado que fizessem dele um cromo do ideal do Kitsch. Se eu fosse paneleiro — estribilho infame a que vou pôr fim — teria exultado com o que vi este fim-de-semana: o “orgulho gay” instalado em jeito de parada no Expresso, reivindicado no editorial, e gritado como palavra de ordem pela presidente do CDS. 
NOTA: No título, a palavra “paneleiro” é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura, mas porque seria um foco de atracção dos clicks. Antes paneleiro que populista.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018


Se o que se quer é escrever correctamente poesia
não chega a sensação de se desfalecer no jardim
sob o peso concertado da alma ou seja o que for
e do célebre crepúsculo ou coisa que o valha.
O coração é pobre de vocabulário.
O seu labirinto: um jogo para atrasados mentais
em que dá vontade de rir vê-lo mover-se como um boi
um leitor integral de romances por catálogo.
Desde o momento em que chega ao rosto o violino
nem sequer a triste Valsa de Sibelius
permanece na sala que se enche de tango.

Salvo honrosas excepções as poetisas uruguaias
ainda confundem a poesia com um baile
num mórbido clube recreativo,
ou confundem-na com o sexo ou confundem-na com a morte.

Se o que se pretende é escrever correctamente poesia
seja de que jeito for há que levá-lo com calma.
Antes de tudo: sentar-se e amadurecer.
O ódio prematura à literatura
pode até dar jeito para não se passar no exército
por maricas, mas o mesmo Rimbaud
que mostrou odiá-la foi um rato de biblioteca,
e essa náusea gloriosa veio-lhe de a roer.

O xadrez é jogado
com as palavras até para uivar.
Equilíbrio instável da tinta e do sangue
que deves manter de um verso ao outro
sob pena de rasgares os papéis da alma.
Morte, loucura e sonho são outras tantas peças
de marfim e de corno ou seja o que for;
o importante é movê-las no jardim regrado
de forma a que o peão que baila com a rainha
não lhe perdoe o menor passo em falso.

Esses que insistem em chamar as coisas pelos seus nomes
como se fossem claras e simples
enchem-nas simplesmente ne novos ornamentos.
Não as expressam, giram em torno do dicionário,
tornam o idioma cada vez mais inútil,
chamam-nas pelos seus nomes e elas respondem pelos seus nomes
mas onde se despem para nós é em recantos escuros.
Discursos, orações, jogos de mesa,
todas estas coisitas em que as vamos gastando.

Se o que se quer é escrever correctamente poesia
não ficaria mal baixar um pouco o tom
sem adoptar em seu lugar um silêncio monolítico
nem se ficar por murmúrios.
É um peixe ou algo do género o que tentamos pescar,
algo vivo, rápido, que se confunde com a sombra
e não a sombra em si nem o Leviatã inteiro.
É algo que mereça ser recordado
por alguma razão semelhante a nada
mas que não é nada nem é o Leviatã inteiro,
nem exactamente um sapato nem uma dentadura postiça.

- Enrique Lihn

“Canícula” de Daniel Jonas, recensão crítica de João Oliveira Duarte


[Publicado originalmente na Colóquio Letras, n.º 197]

Falando sobre a “perda da auréola” por parte do poeta – que vive, doravante, numa época em que se verifica a “impossibilidade de legar o nome à posteridade”[i] –, Manuel de Freitas confere a este uma espécie de última vocação: perdendo a auréola, de forma significativa, enquanto saltitava, “o poeta (sem maiúscula) extrai riqueza e sentido da penúria, «associando-se» a um olhar deliberadamente «pobre»”[ii]. Em causa, neste olhar, está também, mas não só, uma cesura entre o poeta e o seu tempo, como se, depois de Baudelaire, o lugar do poeta fosse infinitamente problemático e ele se encontrasse obrigado a dar conta desse mal-estar, mesmo quando o denega.
Há uma grande diferença entre este “olhar deliberadamente pobre” e a exuberância que a poesia de Daniel Jonas tanta vez demonstra, ao ponto de, numa entrevista recente, esboçar uma crítica a um gesto “neo-neo-realista” que traz para o poema o «táxi», o «cigarro», o «bar»[iii]. O que torna tanto mais interessante, exactamente por causa dessa crítica, que este recente livro de Daniel Jonas retome uma tradição da qual parecia afastado ou à qual seria, em última análise, estranho: a tradição poética que toma a cidade enquanto objecto – e que faça chegar alguma coisa a um campo de investigação que parecia esgotado.São vários os lugares, na sua obra anterior, onde figuras míticas ou bíblicas são convocadas. A título de exemplo, podemos referir a forte presença da herança clássica, tanto grega quanto romana, em Sonótono – mas também John Milton, traduzido por Daniel Jonas, é aí explicitamente convocado –, a presença, de caracter “confessional”, da história bíblica de Jonas em (“Do ventre da baleia ergui meu grito:/ Senhor! (dizer teu nome é bom),/ Em fé, em fé o digo, mesmo com / um coração pesado e contrito/ que és tudo verdade e não mito (…)”[iv] ou mesmo a convocação, também em , da figura de Jó. Apesar de a história bíblica de Jonas também surgir em Canícula, de forma não explícita (“A casa é o ventre do grande cetáceo/ e eu o insignificante arpoador/ acupunctor de imenso/ lombo nórdico, mínima paisagem/ na acumulação dos mares” (13), as figuras com maior predominância em são, por um lado, Sísifo, cuja tradição literária, mas não só, é convocada e, por outro, a história bíblica de Isaac e Abraão, em que este último oferece o filho a Deus em holocausto como prova de fé (num sacrifício que nunca o chegou a ser).
De forma implícita (“eu suo a Bica…/ vou joeirando a água da fronte/ com o pano supino de dedos” (19) ou expressamente convocado (“Sísifo subindo S. Paulo/ chorando o vinagre da agonia” (24), Sísifo comparece no mais longo poema e aquele que, de certa forma, marca o tom de Canícula.
“É então quando ascendo ao topo do turistavindo do sopé de mim e da tardeque me alcandoro por momentos na
realização de Sísifochorando sobre o seu Evereste
de postal” (44)É interessante sublinhar o uso do gerúndio, espalhado um pouco por todo o poema – “Vou subindo vagaroso/ vou escalando a custo rumo a todo o lado” (44), logo no início, repetindo pouco depois, “Vou subindo vagaroso./ Vou subindo a contragolpe do sol” (45) e, por fim, conferindo-lhe uma ligeira modificação “vou subindo por mim mesmo/ cantarolando de mim mesmo” (47). Este uso do gerúndio acaba por ser uma decorrência do próprio trabalho interminável de Sísifo, que, também ele, não vê fim para o seu martírio. Mas aquilo que poderia servir na poesia de Daniel Jonas como um elemento heróico, em que o poeta, “solitário, taciturno, mastigante” (45) encontraria um lugar “onde preencher a bazófia lírica que te reclamas/ à janela de ti mesmo” (41), acaba por se transformar num gesto irónico – a lembrar certos elementos presentes em Baudelaire, em particular essa perda da auréola enquanto saltitava na lama. Sísifo já não ascende ao topo de uma montanha, carregando uma pedra, mas ascende “ao topo de um turista/ (…) chorando sobre o seu Evereste /de postal.”, “surpreendido e eternizado no flash/ melancólico do olho adunco forasteiro” (44).Da mesma forma, a presença da história bíblica do sacrifício não consumado de Isaac surge, também ele, como forma de pensar o gesto poético em articulação com o território inóspito da cidade: “Subo a Bica como Moriá/ e passo por este ascensor/ de descida/ bode expiatório inverso (…)” (66). Mas, também aqui, Daniel Jonas acaba por ler de forma irónica a história bíblica, retirando-lhe toda a carga trágica. Abraão, por exemplo, surge retratado da seguinte forma: “O teu pai é forte: todo ele músculos,/ gânglios bíblicos/ espirituais com uma mentalidade de patriarca/ não sei quantos cavalos de potência,/ determinação, responsabilidade, visão,/ uma máquina de pai, militar, adubado a praxis/ uma seta, fé devastadora, implacável, (…)” (64).
É a partir destas duas figuras – Sísifo e o sacrifício de Isaac – que este “filho tardio de Álvaro de Campos”[v] vai interrogar a cidade. No entanto, ao contrário da última produção deste heterónimo de Fernando Pessoa, onde é notória uma tonalidade melancólica, em Canícula esta última é suplantada por uma “sola chaplinesca” (56) que vai trabalhar contra qualquer tendência lírica – tendência entendida, aqui, a partir de um “spleenódromo fosco e furibundo” (48). Apesar da ocorrência da palavra tédio em diversos momentos – a título de exemplo, no maior poema de Canícula surge “um berbequim furando-me o tédio nos ouvidos” (50) e, pouco depois, “pretendo explodir de tédio todo o mundo” (74) – a figura que é construída por Daniel Jonas anda distante, como sublinhou António Guerreiro[vi], do flâneur e da sua flânerie – que, em última análise, denota uma intimidade com a cidade que está além de qualquer estranheza que esta tenha. No entanto, tal como a casa se vai tornando progressivamente inabitável – Daniel Jonas avisa de início que Canícula foi escrito no nº 46 da Rua da Boavista, em Lisboa, numa residência artística em parceria com a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago –, começando por se tratar de uma “coabitação analítica/ de necessidade ou desejo” (9) para passar a uma “clausura/ se vista de fora e habitada por dentro”  (27) transformando-se, por fim, num “tumulto de abandono” (43), também a cidade se vai transformando progressivamente num corpo estranho. Aliás, esta “ecoa” a figura do poeta que vai sendo diferencialmente construída ao longo de Canícula – dando-se por vezes a ler um isomorfismo entre ambas [“Chuvosa tarde, eléctricos me doem” (63), onde se nota uma clara influência de Álvaro de Campos]: Sísifo “subindo por mim mesmo” “em direcção a nada que se veja” (49), Isaac que se vê obrigado a carregar o material para o seu próprio sacrifício, como o poeta que, “arcando com o peso do vento na mochila/ de todos os meus actos e sufrágios/ aqui se confluindo na subida/ aqui na Bica a custo”(46).Se o flâneur anda pela cidade como se cada lugar fosse, de facto, uma parte da sua casa, encetando uma relação especular e isomórfica com ela – o seu lugar, como sublinha Benjamin, é no meio da multidão –, a figura do poeta construída por Daniel Jonas, pelo contrário, encontra-se nas antípodas da flânerie. Recorrendo por diversas vezes à alegoria como forma de caracterização da cidade – veja-se, por exemplo, o que escreve relativamente aos pombos: “Os pombos são os cortesãos aziagados/ de um palácio em ruínas./ Nobres, pestilentos e infectos,/ a minha roda de aduladores,/marqueses insolventes” (17) –, a figura do poeta vai ser aquela de um “nativo-forasteiro subindo a Bica” (Jonas, 2017, p. 44), permitindo-lhe reclamar-se de uma exterioridade face à cidade. Nem nativo nem forasteiro – “E autóctone nem isso, com efeito…/ Apenas um ludâmbulo, enfim…/Que nem de aqui ser calha, calha bem…” (67) –, essa sua condição permite compreender duas características deste “psicodrama interior de alguém que se passeia com uma câmara pela cidade”[vii], psicodrama que, sublinhemos, nada tem de biográfico ou de psicológico. Por um lado, há essa dimensão de uma lógica “sacrifical” que instaura uma retórica da queda, um mal-estar que se deixa ler de forma existencial - “sovado pelo obturador frouxo da existência/ como num matadouro de diapositivos” (27). Por outro, no entanto, e devendo ainda algo a Álvaro de Campos, essa tonalidade que poderia dar lugar a um lamento de matiz melancólico ou àquele olhar pobre de que fala Manuel de Freitas, é, pelo contrário, o momento da transfiguração da linguagem e do real. Vários exemplos poderiam ser dados da presença desses dois momentos em Canícula, a começar pelo crescendo do poema mais extenso que os consegue entrelaçar através de um domínio rítmico da linguagem. Mas gostaríamos de destacar uma passagem de um outro poema: “e há um mal de ser em mim que me faz grande/ e uma zanga zonza de zangão/ como alguém que sobra e se desaba/ do plúmbeo zepelim das asas” (Jonas, 2017, p. 31). É a partir daquilo que sobra e desaba que a cidade se vai transformar num “frémito de brilhos” (21), ao mesmo tempo que, na sua estranheza, vai soar “como sinos derradeiros/ e afinal eram o dezoito ou o vinte e oito ou lá o que é…” (20).


[i] Manuel de Freitas, Pedacinhos de Ossos, Lisboa, Averno, 2012, 21
[ii] Ibidem, p. 13.
[iii] Joana Emídio Marques, «o antiquado que é o mais alto da poesia portuguesa. Entrevista a Daniel Jonas», 4 de Abril de 2017, Jornal O Observador.[iv] Daniel Jonas, , Lisboa, Assírio&Alvim, 2014, p. 9.
[v] Diogo Vaz Pinto, «O Poeta é um tradutor. Entrevista a Daniel Jonas», 22 de Maio de 2016, Jornal Sol.
[vi] Cf. Recensão a Canícula, Público, 7/4/2017.
[vii] Joana Emídio Marques, idem.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Phantom Thread (2017)



10/10



É feio o céu daqui e uma outra terra
descolou já desta, levou a rosa
de que o vento colheu a forma
e foi pelo deserto comendo gafanhotos
Eis que damos uns pelos outros
rindo desses rapazes adoidados que
por um fio de guita parecem seguir
algum continente perdido, o meu
é um Noé dos fundos, dos bichos
de escritório e seres de conta perdida
que outros matam sem remorso mas ele
cuida, povoando o seu infantário

Em algum momento suspeitamos
que isto virou, as leituras proibidíssimas
de outrora, quando a casa inteira sucumbia
dão-se a ler hoje desdenhosas
e os gatos que antes vinham
só nos deitam miradas trocistas
não há como nem assunto e parece
que por nada deste mundo voltaremos
a discutir em voz alta nos cafés

A carne também foi muito cedo
logo se fartou de nós
das nossas tristes paixões tão breves
e agora só picadas de abelha
algum corte fresco a incham
nos recordam o gosto, a cama e o pão
entre os quais partimos o mundo
Estão quase ilegíveis
os velhos apontamentos sujos de vida
como as medidas tomadas
nalgum quarto mais fundo, com uma lanterna
arrancando as pétalas da noite

mas abro um lenço antigo teu
espalho as migalhas da lua
e as sombras do meu trabalho devoram-nas
quase imploro abençoa-me luz enraivecida
possa um verso com o escândalo inteiro
da tua despedida, lembrar-me a cintura
que me fez passar noites a meio das escadas
emagrecido alto com alfinetes entre os lábios
e em baixo o silêncio como um coro
até que o anjo de um desesperado instante
viesse buscar-me

ouço os meus passos, descansam-me
há uma rua lentíssima nesta história
onde todos já me conhecem
onde se é feroz ficando ali imóvel
amachucado pelo vento e
como no verso de Emundo de Ory
gemendo em cima da rosa

A arte sacra de Mumtazz (António Barahona)



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segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Entrevista a Álvaro Domingues



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quinta-feira, fevereiro 08, 2018


A raiz desta ausência toda, a fonte, por assim dizer, de tudo quanto falta, às vezes é mais fácil explicar com a humilhação de todo aquele que chegou aí e aguarda, vê a esperança que trazia ser sovada até ficar por um fio, o que tem envenenado a época, deram com Ele, uns séculos já passados sobre a certidão do óbito, o corpo largado de borco, numa região pantanosa, tomado de silvas, insectos gordíssimos, grandões, picando e brilhando, lá estava o fabuloso cadáver já avançado no estado de decomposição, mas produzindo ainda um certo tremor na paisagem, como se ela mesma tivesse dificuldade em engolir. E foi um miúdo, seis anos, com uma ligação fraca mas teimosa à net quem, desde o Paquistão, varando terrenos através do Google Maps, foi dar com aquela sinuosa saliência, e o baile selvagem armado ao seu redor. Fino como só eles, o puto tomou as precauções, e reclamou o tesouro, tirou as coordenadas precisas, rapou o cabelo, montou uma campanha, com boné dos Phillies, e fez-se passar por um puto americano, montou uma campanha, pedindo donativos, era um rim, uma leucemia, sei lá, editou um vídeo com gente chorando, montagem dos atentados, coisa e tal, pôs até uma música discreta, estendendo a mão, e sacou o suficiente para comprar o tal terreno, junto à problemática fronteira com a Índia, só confiou aos pais o achado quando tinha a coisa já bem encaminhada, e foi então garantir-se de que não havia sido tudo uma miragem internáutica. Quando o mundo soube, como era demasiado o afã de todos, um braço-de-ferro entre aranhas começou, e foi preciso vencer as injunções, providências, já tinha doze anos quando se saiu do outro lado da montanha jurídica que lhe meteram no caminho, nisto sempre enxotando as milionárias propostas das farmacêuticas, doidas por espiolharem os restos (afinal) mortais do Grandioso, e houve também, pelo meio, as associações de menores querendo tirá-lo dos pais, os membros mais velhos da comunidade querendo dar conselhos, e a ganância da família, que entretanto se tinha estendido pelo menos para o dobro. Em volta da propriedade havia uma sucessão de fitas, como na cena de um crime, e os terrenos em volta tinham sido hiperloteados, vendidos por fortunas, condomínios de gente revezando para deitar uma vista da janela, os satélites chocando lá em cima, o governo paquistanês, proibiu os drones num raio de quilómetros, enquanto isto a comunidade científica, os diversos ramos académicos trepavam uns pelos outros numa histeria insuportável, eram as questões éticas, os desafios morais da descoberta, as implicações para o mundo religioso, em polvorosa, os receios quanto a instauração de uma segunda e lutuosa Jerusalém, as intifadas ao puto, seitas nascidas em torno de ameaças de morte, o anti-Cristo, anti-aquela-coisada-toda, e o miúdo, Misbah (perdoem, tinha-me esquecido de dizer o nome), não dava entrevistas, embora, de quando em vez, ainda respondesse a alguns emails. O que todos queriam saber era o que faria quando finalmente pudesse reclamar o prémio. Ninguém nunca parecia satisfeito com a resposta, a insistência dele em que não tinha grandes planos, que tudo partia do desejo de chegar mais perto, mas que, além disso, queria dar-Lhe um enterro digno, e, por cima, só imaginava um jardim no qual, com todo aquele brilho, desse para ler de noite.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Poemas de Joyce Mansour


Sonho com as tuas mãos silenciosas
Que vogam sobre as ondas
Rugas caprichosas
E que reinam sobre meu corpo sem procurar ser justas
Estremeço e acabo por murchar
Pensando nas lagostas
De antenas ambulantes e ávidas
Que raspam o sémen dos barcos adormecidos
Para estendê-lo tão-logo sobre as cristas do horizonte
As cristas espreguiçando polvilhadas de peixes
Nas quais eu me vou saciando todas as noites
A boca cheia as mãos cobertas
Sonâmbula de mar salgada de lua

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As cegas maquinações das tuas mãos
Sobre os meus seios estremecidos
Os movimentos lentos da tua língua paralisada
Nas minhas orelhas patéticas
A minha beleza íntegra afogada nos teus olhos sem pupilas
A morte no teu ventre devorando-me o sexo
Tudo faz de mim uma estranha donzela

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Chove na carapaça azul da cidade.
Chove e o mar lamenta-se.
Os mortos choram incessantemente sem razão e sem lenço.
Contra um céu viajante recortam-se as árvores
exibindo os seus membros tesos aos anjos e aos pássaros
porque chove e o vento se calou.
Gotas loucas limpas da sujidade
caçam gatos pelas ruas
e o cheiro peganhento do teu nome expande-se
pelas veredas e o asfalto.
Chove meu amor sobre o campo devastado
onde os nossos corpos tombados germinaram
alegremente todo o verão.
Chove ó minha mãezinha e nem tu podes coisa nenhuma
porque o inverno caminha solitário sobre a extensão das praias
e Deus esqueceu-se de fechar a cancela.

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Um velho e a sua velha ocultos debaixo da terra
mão apodrecida com mão putrefacta, confortáveis na sujeira
falam-se sem lábios e entendem-se sem palavras
ouvem o canto lento e grave da terra nutrida
e em seus corações perguntam-se
se algum irão morrer.

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Roubei o pássaro amarelo
que habitava no sexo do diabo.
Ele há-de ensinar-me a seduzir
homens, cervos, anjos de asas aos pares.
Ele levará a minha sede, a minha roupa, as minhas ilusões
Ele irá dormir
mas o meu sono irá pelos telhados
sussurrando, gesticulando, fazendo amor violentamente
com os gatos.

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Moscas sobre a cama
no tecto na tua boca nos teus olhos
encostado a elas com o lençol até ao pescoço
o homem impotente astuto ignorante
Deixa-me a pele
Deixa-me o ventre intacto.

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Quero dormir contigo, a teu lado
nosso cabelo entrelaçado
nossos sexos unidos
com a tua boca na almofada
quero dormir contigo, de costas coladas
sem respiração que nos separe
sem palavras que nos distraiam
sem olhos que nos mintam
sem roupa.
Dormir peito contra peito
tensa e suando
brilhando de mil tremores
consumida pela louca e estática inércia
estendida na tua sombra
martelada pela tua língua
até morrer no dente apodrecido de um coelho
feliz

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O SOL EM CAPRICÓRNIO

Três dias de descanso
E porque não o túmulo
Afogo-me sem a tua boca
Esperando o amanhecer recém-nascido derramar-se
E as longas horas detidas na escadaria
Com o cheiro a gás
Como uma máscara para o rosto aguardo a manhã
Vejo a tua pele brilhar
Na fenda negra da noite
O lento aparecimento da lua
No mar interior do meu sexo
O pó sobre o pó
O martelo sobre o colchão
O sol sobre um tambor de chumbo
Mesmo sorrindo a tua mão golpeia indiferente
Vestida de crueldade inclina-se para o vazio
Dizes não e o objecto mais pequeno o corpo de uma mulher pode abrigar-se
Dobrar-se
Beleza artificial
Perfume sintético no sofá por uma hora
Por que girafas pálidas
Deixei eu Bizâncio
A solidão fede
Uma opala é um quadro oval
Outro ataque de insónia com rigidez articular
Uma vez mais uma adaga vibra na chuva
Diamantes e delírio são os desideratos do amanhã
Suor das praias de tafetá sem abrigo
Loucura da minha fé perdida.

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Vivemos colados ao tecto
Sufocados pelos vapores rançosos que se desprende da vida quotidiana
Vivemos incrustados nas mais baixas profundidades da noite
Nossas peles ressequidas pelo fumo das paixões
Giramos em torno do pólo lúcido da insónia
Sustidos pela angústia separados pelo êxtase
Vivendo a nossa morte na gola da nossa sepultura.

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Silêncio porque a sombra da morte empalidece.
Meu coração nu jaz sobre a cama
Perfurado por uma língua
Que não soube reter
Seu suco.
Despeja as tuas doces orações
Sobre o seu olhar de criança sem infância
E escuta como o silêncio da noite
Paira com as suas asas de fuligem
E as pernas abertas.

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Agrada-te dormir na nossa cama desfeita
Os nossos velhos suores não te incomodam.
Os nossos lençóis manchados por sonhos esquecidos
Os nossos gritos ressoando pelo escuro dos quartos
Tudo isso excita o teu famélico corpo.
Por fim o teu rosto feio ilumina-se
Pois os nossos velhos desejos sãos os teus sonhos de amanhã.

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Quero mostrar-me nua ante os teus olhos melódicos.
Quero que me vejas gritar de prazer.
Que os meus membros dobrados por um peso excessivo
Te levem a cometer actos ímpios.
Que os finos cabelos da minha cabeça oferecida
Fiquem presos nas tuas unhas curvadas de furor.
Que te mantenhas de pé cego e crente
Contemplando do alto o meu corpo despetalado.

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Não conheço o inferno
Mas o meu corpo arde desde o meu nascimento
Nenhum demónia aviva o meu ódio
Nenhum sátiro me persegue
Mas o verbo nos meus lábios transforma-se num parasita
E o meu púbis tão sensível à chuva
Imóvel como um molusco reagindo à música
Fica junto ao telefone
E chora
E com o peso todo a minha carcaça exalta-se com o teu velho sexo exposto
E dormente.

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Busquei o teu nome na boca dos moribundos
Beijei-te apesar da minha dentadura postiça
Acariciei-te os seios marcados pela angústia
Cervo listrado com olhos flamejantes
Mulher maldita com pés de jade
Meu sexo persegue-te à sombra de uma onda
Indiferente aos anos que passam
Sem deixar nunca
De gritar.

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Soa o telefone
E o teu sexo é quem atende.
A sua voz de cantor rouco
Sacode o meu tédio
E o ovo duro que é o meu coração
Frita.

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Que falo tocará o sino
No dia que acabarei a dormir debaixo de uma manta de chumbo
Fundida no meu medo
Como a azeitona no seu bote
Fará um frio metálico e sem brilho
Não voltarei a fazer amor numa banheira esmaltada
Não voltarei a fazer amor entre parêntesis
Nem entre os lábios javaneses de um relvado primaveril
Irei exsudar a morte como uma transpiração amorosa
Rodeada acossada pelas visões de outubro
Vou-me envolver na lama.

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Não comam os filhos dos outros
Pois a sua carne apodreceria nas vossas bocas bem providas
Não comam as flores encarnadas do verão
Pois a sua seiva é o sangue de crianças crucificadas
Não comam o pão negro dos pobres
Pois este foi fecundado pelas suas lágrimas ácidas
E afundaria raízes nos vossos corpos recostados
Não comam para que os vossos corpos possam murchar e morrer
Para criar sobre a terra em resultado deste duelo
O outono

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Ilhas de doenças
Com leprosos como papagaios
Mar de silêncio gelado pelo relógio a matraquear a velhice
Gritos de uma jovem cadela mutilada
O hospital vela pelos seus mortos-vivos que não chegaram a ver luz


Ocupar espaço


* O que eu chamo de “ocupar espaço” está, de certa maneira, naquele “Teorema” de Pasolini. Também não seria aquilo, se a gente quiser assim, uma transa de vampiro, um filme de terror? Melhor: uma história de terror? 
* Ocupar espaço, num limite de “tradução”, quer dizer tomar o lugar. Não tem nada a ver com subterrânea (num sentido literal), e está mesmo pela superfície, de noite e com muito veneno. Com sol e com chuva. Dentro de casa, na rua. 
* Ocupar espaço, criar situações. Ocupa-se um espaço vago como também se ocupa um lugar ocupado: everywhere. E aguentar as pontas, segurar, manter. Ou, como em “Teorema”, aplicar e sair do filme. Tiro um sarro: vampiro. O nome do inimigo é medo. Meu nome ninguém conhece. Moro do lado de dentro e nasci na Chapada do Corisco – carrego isso. Plano geral na parede: numa encruzilhada vista do alto as pessoas se movem e correm atrás de algo. Não sei se é uma pelada, não sei se é outra coisa. Corta e lemos a palavra: DESÇA. Fim do cinema, início do cinema. O espaço desocupado, ocupação do espaço. Filmes. 
* Sem começo e sem fim, mas mesmo assim: pelas brechas, pelas rachas. 
* Ocupar espaço: espantar a caretice: tomar o lugar: manter o arco: os pés no chão: um dia depois do outro. 
  
- Torquato Neto
(Terça-feira, 30 de novembro de 1971)

A decade on, this autumn, Twitter co-founder Evan Williams registered his dismay at how social media platforms were helping to ‘dumb the entire world down’, lamenting specifically the role Twitter played in Donald Trump’s election victory. In the arena of politics, language has always been the slippery servant of self-promoting, truth-bending, popularity-seeking individuals. In the age of the sound bite, for which social media is the perfect vehicle, we no longer expect the statements politicians utter to convey any meaning whatsoever. From literature we have hitherto expected better – not least because endurance, rather than fleetingness, is one marker of its quality. As Pound put it, literature is ‘news which stays news’. Of all the literary forms, we might have predicted that poetry had the best chance of escaping social media’s dumbing effect; its project, after all, has typically been to rid language of cliché. Yet in the redefinition of poetry as ‘short-form communication’ the floodgates have been opened. The reader is dead: long live consumer-driven content and the ‘instant gratification’ this affords.