sexta-feira, janeiro 19, 2018




Já o rastilho pouco me interessa
e imagino que motivos se deu Napoleão
a ver filmes de guerra, encher o caderno
de notas, o quarto lembra uma enfermaria
com a barafunda agonizante,
gestos a mais, as cordas do corpo
partidas, e quantos ossos debaixo da página?
Os que se aproximam da alucinação
na fila da morfina, atrás de mim
devagar alguém dobra a farda
abre os fechos à mala e uma espécie
de nevoeiro fica por ali,
não há centro e de noite é pior
a noite traz um balanço
capaz de trocar a ordem dos ossos.
O mundo é uma redução gradual
da luz, não sei já onde o li
mas cada um se agarra ao que pode
memórias, retratos, os baldes da chuva,
vasos de flores – pela manhã
tudo finge recomeçar.
Do sonho da sede este tirou
as indicações para abrir um poço,
se viver. Por via das dúvidas
fez-me um desenho, encheu
de pormenores escolhidos a preceito
os passos que já lhe oiço marcando
a distância da casa, do lugar onde jazem
as velhas luas, onde um muro
divide duas épocas. Outro pede-me
que acabe com isto, que lhe dê
uma dose letal, que o apague:
“Que tristeza doutor, tudo isto
para quê... por uns versos?"
Trago o caderno para a cozinha
dividindo com as tangerinas o esforço.
Da vida brusca que sei eu? Abro uma janela
vejo o horizonte desmanchar navios,
se me aborreço organizo lutas de cães
mas com espécies aladas,
dias num vaivém indescritível
a dar de beber indistintamente
indo de cela em cela, nuns fiapos
de romances históricos, colecionando
fatalidades, últimas palavras,
quase me esqueço porque comecei,
quantos dactilógrafos trancados
numa mansarda, e para quê?
Como quem força a mão de um deus,
vivo debruçado em poços a escutar
os céus, raízes ardentes, altas caçadas
a poeira que mais alto se levanta, e dentro
o inferno das coisas inventadas,
de mãos juntas, umas vezes suplico
um tremor que possa apaziguar-me,
outras cuspo nelas três vezes
como um velho soldado,
e sigo em direcção ao desconhecido
sabendo que tragédia nenhuma
me encheria hoje as medidas.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

terça-feira, janeiro 16, 2018

Kaváfis e a virtude ilícita



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


quinta-feira, janeiro 11, 2018


Um tipo desce na alta conta que de si mesmo faz e resolve ir pelas próprias costas. Dirão que não é possível, e nem faz sentido, mas garanto-vos que há maneiras. Fala um condenado, e creio que isso levanta um pouco o gás no banho-maria em que têm o vosso sangue. E mais: não vos levo muito. Uns minutos e, no fim, pela minha parte, nada restará a acrescentar. Quanto a explicações (ou motivo): é como ver-se de alto a baixo a um espelho que é de outro, sem as artimanhas, o geral relevo a que estamos habituados, usando a nosso favor uma combinação de luz e ângulos que se alcança com anos de estudos até ao doutoramento nessas distorções pessoais – todos as temos, mas alguns não passam de contínuos na instituição, e outros dão aulas, têm cátedra. Ele, o espelho (versado nas leis da compensação, pondo um pormenor à frente do quadro geral, ou, em último caso, deitando o quadro abaixo, curto circuito, a porra que for preciso), ele mentia e eu voltava. Mas há um momento em que o olhar de outro nos deixa uma nódoa e quando corremos para algum esconderijo para tirá-la, mudar de camisa, esse outro espelho já não nos cobre o flanco, antes revela como o alfinete foi além da pele: é uma mancha que irá insistir intimamente, causando uma vertigem face a essa direcção entre todas lixada. Às vezes o abismo é uma torneira que deixa um ritmo e quanto mais espaçado mais angustiante no fundo de nós. Ora, diante desse espelho, não larguei mais o fio. Puxando-o não estava a descoser-me mas a trazer à superfície um balde cheio de esterco, e só com este percebi como era fundo e estava cheio dele o poço. Há horas dessas em que nada nos livra da nossa própria investida; um comentário basta naquela fracção de segundo em que a electrificção da cerca falha, o arame farpado ou os vidros partidos revelam-se não mais que ornamentos que já não confortam quem sente os agressores do lado de dentro; o vigia na torre distraído a ver desenhos animados, os cães lambendo as mãos de quem tem também uma guloseima só para ti. Como se sabe, bátegas de chuva, um braço-de-ferro entre tempestades até embalam quem se acha protegido no interior. Tanques nas ruas não passam de moscas... Mas se uma corta a película e nos entra na alma, a gestação não precisa de mais que uns minutos. Com a testa encostada naquele espelho, com vontade de fundir a cabeça nele empurrando-a até deixar de perceber fosse o que fosse, levei os dedos todos de uma mão à boca – não sei se com o impulso primeiro de arrancar alguma coisa, um instinto para curar-me de alguma indigestão que me ameaçava o juízo –, mas acabei por me dar conta que o nojo provocou um desejo de me extinguir pelo meio mais directo, devorando-me. Isto enquanto um cínico não se metesse entre mim e esse ser primário, furioso ainda assim. A minha ideia era não dar-me hipótese de reaver a dose mínima de dignidade que nos leva a compor-mo-nos, arranjar uma desculpa e buscar santuário. Quis pôr todas as fichas em cima daquela sensação atordoante. Um desgosto arrebatador a tal ponto que, se voltado sobre algum ícone, poderia ter funcionado como uma experiência religiosa dessas que atiram connosco nalgum mosteiro tibetano. Aquilo não; era algo mais exuberante e insaciável do que essas trepidações que nos arrastam até uma sensação de vazio. O vazio ali teria sido um consolo. O que sentia era como ter-me passado para o lado do inimigo, um que é o nosso perfeito negativo. Estar ao lado dele, participando na conspiração de um final inescapável e doloroso. Algo que o outro, o do costume – esse que dá por “eu”, esse a que a cola do ego nos mantém presos –, ao recuperar os sentidos não pudesse já contrariar. Não tivesse avanço ou recuo, não pudesse senão rir-se também, virar o copo e lamber da mesa a água do seu desespero, procurando seduzir a loucura antes que a sucessão dos efeitos desencadeados passasse das cócegas a esse prurido inicial, até abrir a ferida e começar a tortura que iria pelas diversas camadas da carne até atingir o osso. Tínhamos então algumas horas. O outro estava sem defesas e assim ficaria pelo resto da noite. Uma noite para deixar a vida por dias. Então fizemos a lista daqueles agiotas com quem poderíamos contar, uns estafermos que além de perseverantes tínhamos por criativos. Os que, mais do que a reputação, cultivam do rumor à lenda uma certa apetência pelo grotesco, o género de estórias que por si só dissuadem as brincadeiras de quem quer que sobreviva um pouco acima do limiar do desespero absoluto. Eram estes magníficos estupores que queríamos alinhados como nosso pelotão. E para que o fuzilamento levasse o seu tempo, íamos ficar a dever-lhes somas das que exigem respeito e sem qualquer outra intenção que, não as pagando, em alguns dias tê-los reunidos a uma mesma mesa com um prémio magríssimo se dividido em partes iguais. Irmãmente, como se diz. É claro que, mal um soubesse, outro desconfiasse, um grau de variação na temperatura, o mais ligeiro aumento na transpiração haveria de produzir essa perturbação ínfima no ar que chega para avisar tudo o que é mosca de que vem aí merda da grossa. Não seria preciso mais do que contar até dez até que este vosso amigo desse por si engasgado com um ferro enfiado até à goela. E o plano, simplificadamente, era esse. É claro que receávamos que o gajo acordasse com a luz e o entusiasmo e viesse ver o que estava a passar-se na sala das máquinas, mas até ali permanecia calado, ressonando ou com uns rabos de frases a sair-lhe da boca, como se estivesse a devorar lagartixas de um balde de pipocas enquanto assistia à projecção do nosso filme. Tínhamos feito até – numa espécie de homenagem à propensão lírica do gajo – uma segunda lista com a série de acções beneméritas ou meramente estapafúrdias em que iríamos esbanjar a massa. A coisa chegou a um nível de pormenor que ia até às encomendas já para a manhã seguinte que esgotariam os floristas num raio de quinze quilómetros, ao ponto destes darem por si a imaginar que este ano o dia de São Valentim se adiantara. Estávamos já a antecipar-lhe os preparativos também para um funeral estupendo. E foi quando já não podíamos organizar mais coisas a partir daquela casa-de-banho que fomos obrigados a arrastá-lo para fora. Era como se dormisse, como um bêbedo derramado em ombros, mas com aquele olhar que seguiu a curva dos astros, o do tipo enrolado na carpete, a arrotar fetidamente como se o leito do rio onde irá fazer companhia aos peixes estivesse já a tratar da papelada no que toca ao processo de decomposição. Fora do apartamento dos amigos – que, de resto, se cagaram nele, e não estranharam nada –, acabámos a puxá-lo cada um por uma perna sem cuidar sequer que a cabeça não batesse aqui ou além, a nuca não soluçasse nos degraus. O corpo não era ainda uma âncora, mas foi como se o saco, de início leve, fosse colhendo lixo pelo caminho. Estava mais pesado e, não é que tivéssemos pena do idiota, mas a missão que até ali nos entretera tanto, tinha entrado na fase da burocracia, aspecto do crime que a ficção quase sempre salta à frente. Como se quem faz vida disto não tivesse a sua dose de horas na lavandaria, vigilâncias nocturnas, uma necessidade de andar a fazer recados para vítimas que ainda não sabem que o são. Desde logo era preciso descer um a um os andares da realidade, e a puta nestas alturas mostra-se um arranha-céus. Era preciso descê-la antes que pudéssemos enterrá-lo num aterro ou no primeiro canteiro. E o elevador tinha porque tinha de falhar nessa noite. É certo que há sempre uma estrada dessas mais largas onde outros imbecis conduzem como pelas próprias cabeças; como guilhotinas e autocarros, perdemos um e, felizmente, logo outro se dispõe a separar o corpo da cabeça. Mas abandonar um corpo numa linha é tão gratuito, tão sem sal no molho de tomate. Para quê servir o drama sem nenhum gosto? Dá vontade antes de ir tocar às campainhas. Sendo duas da manhã, agora que o arrastamos pelas escadas, não é improvável que nos aparecesse um barrigudo, arrancado da cama sem acreditar numa porra destas, disposto a filar a besta que não lhe tira o dedo do taarrrrriiiiiiimmm! Um gajo que só por isso nos esfolasse a menos que tivéssemos na ponta da língua uma explicação preciosa, género: tia velha, rica, recém falecida e de cuja existência ele nem suspeitava, deixou-lhe tudo. Mesmo se, em vez disso, lhe enfiássemos um murro nas trombas tão cedo quanto abrisse a porta, é difícil imaginar que depois de se ter satisfeito com um pedaço de carne que não mais reagiu, uma peúga de ossos que para ali ficara sujando-lhe o tapete, não acabássemos com o corpo num chocalho nas emergências hospitalares ou nalguma esquadra. E mesmo se isto seria um pouco melhor que um desses suicídios limpos, sem maçar ninguém, no fundo, o que é que se aproveitaria de uma morte já aparada para a estatística? Mesmo se já se está a ver como isto vai dar o nó, ficando o dito por não dito e a continuação da pena perpétua para esta besta, agora que já entrámos no sistema havemos de ficar aqui pelos fundos a jogar ao peixinho, aguardando outras abertas. E, se com os cordeirinhos das letras com que ele se mistura no recreio da choldra não se pode contar para nenhum desses motins onde metade deles acabam chinados, se ambições maiores ou vícios mais fundos também não é coisa que nutra este palerma, se nem com as putas no rés-do-chão troca mais que uns lânguidos olhares que nem elas nem nós percebemos se é o rastilho do tédio ou uma pontinha de tesão, por mais diabólica que seja a jogada, com um triste destes não se consegue deixar grande cratera. Na melhor das hipóteses mata alguém, por covardia. No fito de explicar-se e a algum desses problemas que inventa, com uma simples conta de somar acaba ele a subtrair algum a este mundo. Nada que faça o mundo cuspir o café ao ler o jornal. Uma caixa a relatar que os ânimos tinham aquecido, que uma coisa levou à outra e, na atrapalhação de gestos, um golpe escapou-se-lhe e foi fazer ninho na cabeça do outro, isso ou a caneta que fugiu e abriu um furinho debaixo da orelha, no pescoço do outro. E foi o fim de uma carreira já nem se sabe se promissora. Acabaram-se-lhe os versinhos, foi vestir o pijama dos reclusos, e isto são, por ora, fantasias, mas nem é tão raro assim: há ataques cardíacos em que quem acaba por ser a vítima foi o tipo que se voluntariou para fazer a coisa certa, prestar socorro. É esperar; vamos ver.

quarta-feira, janeiro 10, 2018


Se os há dos que por nada deste mundo enfiam o barrete, esses em que nunca nada é com eles, profissionais na arte de escapulir-se, assobiar para o lado, em safar o corpo já nem digo do manifesto mas a quaisquer efeitos secundários depois de fazerem as rondas como delegados de propaganda poética, há aqueles de nós que praticamente não temos escolha, face à tão grande relutância, qual quê, aos que só torturados dariam os nomes aos bois, e acabamos por enfiar barretes a mais, ou porque aceitamos a contradição de aparecermos como hidras por arriscarmos tantos juízos num tempo tão ventoso, ou porque não levamos no bolso o pente para, a cada rabanada, compor de imediato o chinó, acontece-nos sentir na pele os tirinhos tão hesitantes dos que vêm para as cóboiadas com pistolas de fulminantes para dar a sensação ao longe que isto anda tudo numa grande confusão quando, afinal, vai-se ver ao perto e não passa de outro cemitério de tempos mortos das crianças que nem para o recreio saíram, as que crescem como cogumelos na sombra do contínuo, com medo que um índio lhes espete uma seta na preciosa regueifa, e que ali se ficam a rabiscar velhos oestes no caderno. Ora, vamos a um dos nossos preferidos: Hugo Pinto Santos. Diz ele num desses textos que acabam na caliban quando não consegue enfiá-los nalguma das vinte (ou trinta) publicações em papel que inunda semanalmente com as suas recensões molengas: "Em 2018, assinalam-se 40 anos sobre o desaparecimento de Jorge de Sena; para o ano, é o centenário do seu nascimento. Descontem-se os campeões da comemoração, autênticos paladinos da data certa, primeiríssimos a celebrar a ocasião, por entre estudados gestos de desdém: fora dessa órbita que tudo engloba, uma das vantagens a retirar de uma efeméride será por certo a oportunidade de rever (e, em certos casos, de reaver) títulos esquecidos, ou nunca obtidos, ângulos menos previsíveis, de obras e autores assinalados." Dir-se-ia uma espargata de nível olímpico conseguisse ele fazê-la com as pernas em vez de o fazer com os dedos. Primeiro ameaça a mordida, vem embalado, como se desta ninguém o parasse, o carneiro com pele de lobo a treinar uivos de meia-noite, mas logo desgasta a voz, sai-lhe um balido e deixa cair as peles que puxara de alguma vedação. E então atira-se ele ao pasto das efemérides. Torna-se ele (mas excepcionalmente só, é claro) o dono de uma comemoração. Mas aqui queria chamar a atenção para a pequena pirueta deste mémé das recensões que parece convencido que estamos no período nem digo de ouro mas já platina da literatura portuguesa, em que por ano são publicadas umas 40 obras-primas, e originais!, coitado do Sena, fosse hoje e o Hugo sozinho tinha arrancado o homem lá dos brasis e santas bárbaras, era homenagem a torto e a direito, o homem morria-se sufocado sob o peso das medalhas... Diz ele que há por aí uma bandidagem, uns aiatolás das comemorações que são sempre os primeiros a mijar no muro das ocasiões, mas isto "por entre estudados gestos de desdém". Ora, era bom que este ascensorista que só sabe ir para cima, que eleva todo o casebre de dois pisos a arranha-céus, tivesse a paciência de dar-nos exemplos desse (nosso?) estudado desdém. Infelizmente, o rapaz está com toda a pressa, tem já outro para o Público, a Colóquio, a Ler, a Celeste, além dos serviços de jardinagem noutros canteiros, é imaginar os emails a rever com cada autor como quer o corte, as unhas, e assim entende-se que não lhe reste tempo. Mas um dia destes, nalguma dessas salas de espera entre a consulta com o elefante X e o Z, tire aí umas notas sôtor. De qualquer modo, vale a pena lembrar que é esta mascote fofa do campeonato inteiro, este carneirão que torce por todas as equipas e até pelos árbitros, que sem estudo nenhum tem mantido num desdém inqualificável tudo o que foi publicado pelas edições língua morta desde que aqui começou a ser chamado à liça pelas cagadas que lança coladas às flores que vai distribuindo à esquerda e à direita. É esta fada do lar dos letras que tem estrelas fluorescentes para todos os esquifes, mas castiga todo e qualquer autor publicado com este selo. E vem este mémé falar de desdém? Como é que um tipo se leva a sério quando alarga o seu ângulo morto a tudo o que (agora sim indiscriminadamente) vem de uma editora, e assim abdica do critério essencial para alguém que pretenda assumir-se como crítico literário? E não devia alguém assim escusar-se de participar em balanços anuais? Não devia vir uma nota no fim onde se lesse qualquer coisa como: "sua senhoria é intolerante à acrimónia, e recusa-se a considerar o que quer que haja sido publicado pela língua morta". E agora, para acabar de despir de veleidades o carneirame que, de vez em quando, se junta no coro para produzir esse uivo harmónico, fica uma citação: "Ele simplesmente acreditava que a capacidade de deixar a nossa auto-estima estrutural ser atacada e feita em cinzas era uma medida da nossa seriedade. Uma pessoa devia ser capaz de ouvir, e de aguentar, e de ultrapassar, o pior que pudesse ser dito dela." (Saul Bellow, "Ravelstein")

sábado, janeiro 06, 2018



magra flor que inspira fundo


Lembra-te, anda, diz-me, quem foi
quem primeiro disse a um gato que
tinha toda a razão
viu nele o oposto de um padre
mesmo se igualmente cerimonioso
e o viu passar nestes efeitos de transição
entre cenas da vida conjugal
e a solitária, a paisagem já desmontada
um espaço interior semi-obscurecido
ali a magra flor que inspira fundo
como ter alguém que dorme na divisão
de boca aberta e fazer fila para ir ver
com quantos mais olhos
discutindo com os sonhos dela
a noção das proporções
trocando vertigens, a incerteza
sobre que ideia a realidade faz de nós
aqui, teu triste antro hoje
nuns arranjos de altar

já todos sabem a que santos rezas
que diabos, no fim, te dão ouvidos
escolhes, ordenas os estilhaços
essa floração que aperfeiçoas atravessando
de uma ponta à outra o escuro
com a lentidão de quem
executa cada nota na cabeça
assim explodes
sentes abrir e rasgar-se a carne
nos ramos do próprio grito colhes
um fruto que fixe o centro do sangue
os ritmos, como um concerto barroco
assistes exiges mais da secção de cordas

tão grande parte da vida passaste imune
mas logo há uma noite apontada a ti
um bando de astros truculentos
desses que vêm ver-te à pior luz
a razão bêbeda de si tacteando as margens
do irreversível
um verso atirando a corda, outro
dando o nó, o último
chuta a cadeira e, já fora,
alguém agoniza com um ar surpreso

enquanto a dor não lhe tira as dúvidas
aguardas que se cale, que deixe ali tudo
e a cidade se ponha inteiramente à escuta
que solo sublime há em cada estertor
e assim toda a imagem que estale a retina
pende como um enforcado
o espanto contorce-se, cospe nas veias
um veneno, à carne nem os corvos
a querem, desta piada
nem a morte fica a rir-se


sexta-feira, janeiro 05, 2018


Devia ter lá a placa com um aviso, não o cuidado com o cão que, por falta de dentes, se perdeu entre as espécies, acabou sem função, estes já não guardam nem ladram, e as caravanas até sentem um arrepio, o deserto é um sem fim de coleiras largadas na areia, nada perseguindo nada, miragens coçando o braço como agarrados debaixo de estrelas abatidas, mas ainda assim, algum cuidado é preciso, hoje com esses que fizeram uma descoberta há décadas e ficaram por isso mesmo, como se fulminados, encadeados nela, tomando os pés por raízes, em vez de um bosque com clareiras, um deserto com uns tufos de ervas, uns pêlos aqui e além, essa gente que faz uma descoberta a cada 30, 40 anos, e as patrulham com carabinas, fazem uma fé de volta de um deslumbramento velho, às vezes herdado dos pais, dos avós, e chamam tradição a vidas plantadas à entrada do mausoléu, onde esperam acabar enterrados, se um grão de lucidez se lhes mete no pobre mecanismo, o raciocínio empena, em vez de tomarem umas conchas de mão de um poço e seguirem, ornam-se relógios parados ruminando uma hora perdida, lembram runas, vestígios, e em vez de mil instrumentos para as infinitas oportunidades de medição, ficam-se pelo metro, o centímetro, as milimerdinhas, e tudo o resto é extravagância, cai fora da realidade o que não regista no aparelho adoptado aquando lá da revolução obsoleta deles, o mote ficou dado, agora resta a glosa, a redundância exacerbada, a militância amante do preso pelas grades.

Entrevista a José Manuel dos Santos sobre Mário Soares



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


quinta-feira, janeiro 04, 2018

Ano Velho / Ano Novo



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)




Entrando e saindo da ficção de que 2018 marca um capítulo novo, vamos provar o fiambre que se corta da perna do tempo, como se fizesse diferença, como um estímulo para a esperança

Demos o salto e, ainda que tenhamos caído no mesmo lugar, há sempre a expectativa que, ou se frustra, ou tem de acomodar-se. Dois mil e dezoito em breve não será mais uma novidade. Os cumprimentos já não irão estender-se recíprocos a um ano inteiro. Entretanto, se está tudo no mesmo lugar, isso não nos impede de passar com ar de inspectores, tirando medidas, inspirando mais fundo e pisando como se a gravidade deste lado pudesse aliviar-nos um pouco do peso que arrastámos até 2017. Talvez haja até uma tontura própria destes que, sem fazer muito por isso, dobraram um século, um milénio, e dão por si a viver com números que envergam um fato espacial, que têm um design e mesmo uma sonoridade algo futurista.

Nestas coisas, quem já foi para lá da idade do deslumbramento e não caiu ainda na idade da eterna nostalgia, nem foi crucificado por um fígado que não perdoa a menor gracinha, um gole de superstição ou zurrapa festiva, nem a lingerie que vestem as nossas ilusões para puxar para si um pouco de sorte, entende que a ideia de cortar o tempo em fatias foi uma invenção genial. Mesmo que se fique só pelo estímulo. Como notou Roberto Pompeu de Toledo – e não Drummond, como é costume ler-se na internet –, a ideia de cortar o tempo veio de algum empreendedor que descobriu como industrializar a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. “Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente…”

E basta olhar para ele, ali despido como pele de cobra, ver como 2017, esse Ano Velho, se recolheu, para saber o destino que levará este ano ao fim de mais trezentos e sessenta e cinco dias em Portugal – e aqui, de passagem, cite-se uma das farpas de Eça:  ia enfastiado e embrutecido; percebia-se que ia de cá pela grosseria dos remontes das botas; (...) ia ressequido da falta de banhos; palitava os dentes com as unhas; sabia ajudar à missa; assoava-se a um lenço vermelho; perguntava a todo o propósito que há de novo? E era reformista. Estava alusitanado. – O Ano Novo vinha da frescura do céu”.

Mas para acabar de vez com esses fuminhos da lusa sentimentalice, esse logro dos incensos, tentativas de entrar com pé direito, o melhor é ir de repelão, entrar por 2018 a dar com os queixos no chão, e desejar a tudo e a todos o mesmo que Agustina desejou certa vez: “Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse no ventre morte, peste e guerra. Morte à senilidade idealista e à retórica embalsamada; peste para um certo código cultural que age sobre os grupos e os transforma em colectividades emocionais; guerra à recuperação da personalidade duma cultura extinta que nada tem a ver com a cultura em si mesma.”

Depois, enfim, até a irritação se modera. Estamos, afinal, mais velhos: essa é a única, a fatal conclusão que nos aguarda. E assim, trocando por miúdos, a Sibila reformula: “Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse nos braços a vida, a energia e a paz. Vida o suficientemente despersonalizada no caudal urbano para que os desvios individuais não sejam convite ao eterno controlo e expressão das pessoas; energia para desmascarar o sectarismo da sociedade secularizada em que o estado afectivo é mais forte do que a acção; paz para os homens de boa e de má vontade.”

Com as passas, a champanha, e carraspanas que vão servindo sempre aos homens como jeito de empurrar, às vezes de abater uma mula que não quer dar outro passo, para, depois da ressaca, fingir que se comprou outra, há as resoluções de fim de ano. Mark Twain, um desses tipos que deixava as frases nervosas, sabendo que tinham sérias hipóteses de ficarem famosas, nunca se cansou de fustigar essa conversada das resoluções. Numa das vezes que fez um discurso a propósito de uma ocasião destas, chutou a coisa desta maneira: “O Ano Novo é uma instituição anual inofensiva, e de nenhuma serventia em particular senão como bode expiatório para bêbados promíscuos, chamadas para os amigos e resoluções farsolas”.

Noutra ocasião, foi igualmente ácido e aproveitou o primeiro dia de algum ano perdido há mais de um século, para notar: “Ontem, todos fumaram o seu último charuto, empinaram o último copito e fizeram um juramento final. Hoje, somos gente pia e uma comunidade exemplar. Daqui por trinta dias, teremos lançado às urtigas a intenção de nos reformarmos, e voltaremos a contar com as nossas velhas falhas e vícios levando-as um pouco mais longe do que antes.”

É a infância possivelmente aquilo de que estamos sempre à procura. Ou a juventude, não aquela em que andamos atribulados, cheios de borbulhas e complexos, ânsias e desejos que, sendo naturais e proveitosos, escondemos como a crimes, fazendo de tudo um castigo. Dando um passo ao lado, e falando das coisas de idade, Julio Ramon Ribeyro escreveu à faca nas suas “Prosas Apátridas” algumas das mais universais sensações que tanto nos isolam, fazem de nós seres embiocados, aperfeiçoando-nos naquela noção de Pascal de que os problemas do Homem vêm da sua incapacidade para ficar sentado quieto, a sós, num quarto. Disse Ribeyro que “a certa idade, que varia segundo as pessoas mas que se situa por volta dos quarenta, a vida começa a parecer-nos insípida, lenta, estéril, sem atractivos, repetitiva, como se cada dia não fosse senão o plágio do anterior. Algo em nós se apaga: entusiasmo, energia, capacidade de fazer planos, espírito de aventura ou simplesmente apetite de prazer, de invenção ou de risco”. É aqui que uma pessoa dá por si mais  vulnerável aos avanços desses doutores de esquina, os que descem os óculos para a ponta do nariz e vêm mirar-nos do alto da sua mal enjorcada experiência de vida e não resistem nunca à tentação de diagnosticar-nos depressões, patologias mais ou menos benignas que se curam com pacotes holísticos, saídas com eles, meditações, retiros de fim-de-semana com programas para grupos e seitas mais ou menos informais.
Para Ribeyro aquele é “o momento de fazer uma paragem, reconsiderar a vida sob todos os seus aspectos e tentar tirar partido das suas fraquezas. Momento de suprema eleição, pois trata-se, na realidade, de escolher entre a sabedoria e  a estupidez”.

Seja como for, agora que já se acabou a euforia desalmada, depois de termos assistido ao mesmo espectáculo gratuito de outros anos – “Feliz Ano Novo! diz o meu irmão hipócrita/ e vomita o que comeu e bebeu o ano inteiro.// Nas igrejas, boates e macumbas/ balimos e bailamos, as ovelhas/ que os filtros da redenção embebedaram./ E lançamos ao mar o tributo florido de nossa gratidão. E os deuses nos desprezam." (Lêdo Ivo) –, agora podemos deter-nos nessa ficção de que começou alguma coisa. Ficção chamou-lhe Fernando Pessoa, que viu como as “curvas do rio escondem só o movimento”, como é tudo o mesmo rio, e começar é só um passo para que se prepara o pensamento, vale pensar um pouco no que há de mais especifico a este tempo do qual Steiner disse há uns anos que perdeu a habilidade de começar de novo.

“Já não temos começos. Incipit: a orgulhosa palavra latina que designa o início sobrevive no poeirento vocábulo inglês inception. O escriba da Idade Média assinala o início de uma linha, o novo capítulo, por meio de uma capital iluminada. No seu turbilhão dourado ou carmim, o iluminista de manuscritos dispõe de animais heráldicos, dragões matinais, cantores e profetas. A inicial, significando a palavra, o começo e o primado, é uma fanfarra. Proclama a máxima de Platão, que nada tem de evidente: a origem é a excelência maior de todas as coisas, naturais e humanas. Hoje, entre as inclinações ocidentais – observe-se a presença muda da luz matutina deste mundo –, os reflexos, as inflexões da percepção são os da tarde, do crepúsculo.”

Talvez devêssemos ter começado por aqui, o que não seria difícil se, entretanto, tivesse havido desenvolvimentos. Não houve. Há cada vez mais um desejo generalizado de pronunciar óbitos, de declarar a morte a torto e a direito, na esperança, talvez, de que isso livre o caminho para que algo nasça. “Jamais haverá ano novo,/ se continuar a copiar os erros dos anos velhos, disse um qualquer na internet tentando passá-lo como versos do Camões. Não há erro maior do que antecipar o desespero. Passar da industrialização da esperança aos pequenos artesanatos e oficinas do descrédito, da descrença. Anda assim o mundo, num desconsolo tal, infamado, doido por lançar a suspeita sobre os outros, talvez para aliviar-se do esforço de exigir a si mesmo uma resolução para levar até ao fim. E se Steiner reconhecia que o seu argumento era também ele, no seu todo, vulnerável, expondo-se ao risco “daquilo que Kierkegaard chamava ‘as feridas da negatividade’”, não deixa de ser mais audível hoje que nunca como, para lá dos testemunhos da filosofia ou das artes, se generalizou entre nós esse eco “dos tempos de encerramento dos jardins do Ocidente”. Mas então e para terminar, apetece citar Manuel Resende e um poema do seu livro “O mundo clamoroso, ainda”: “Longe de mim querer corromper a juventude,/ É um trabalho que sobreleva as/ Minhas capacidades./ Antes cicuta./ Mas tenho que explicar o sentido/ Da palavra “desesperança”.// É uma esperança negativa./ A gente senta-se num cais/ E deixa o sol trabalhar./ O sol minúsculo, isto é, o calor na pele./ Chamo a isto a experiência mínima.// Feito isto:/ Venha de lá então/ Essa catástrofe.”

quarta-feira, janeiro 03, 2018





A que reflexos se entrega a sua carne,
que sonhos truncados lhe deram
essa ligeireza, esse ar revirado
por onde um velho rumor passou
chamando os imortais
nesses pobres quartos onde o amor
é feito e escrito com a pressa
do que foge, sem primavera sem rima
sem trocar os lençóis sem nada
e nem do mais puro
mas desse de qualquer jeito
com vista para um jardim desses
coitados para lá da floresta
onde fica às vezes uma mão de fora
dos vícios e adolescentes enterrados ali
e volta e meia lá vem nos noticiários
têm fama de sacanas os pássaros
que ali cantam como em outras partes
e há tiros p’rá boca como manhãs frescas
anjos fodidos que vêm fazer troça

ao anoitecer a lua reúne lá
o seu séquito de tolos
um fantasma de roupão deixa grilos
pendendo das estrelas por um fio
sem chafariz nem fonte resta a água
desafinando em cântaros quebrados
um só candeeiro serve uma luz
cheia de tremeliques
a não ser que um puto lhe peça
para acabar os deveres da escola

do cimo, da janela
deitas um olhar sobre estas coisas
a vela acesa na última linha
faz tremer a vida inteira
a chama passando a língua
entre os tornozelos da noite
a parte de nós que fica, morre
do lado dos índios ou, já neste século,
embarca com o resto dos malditos
numa canção que vá cuspindo
na carne de que é feito o amor
essa coisa triste condenada
a lançar os dados o dia todo
longe dos jogos civilizados
ganhando balanço até à hora
em que os deuses assobiam
ao ritmo do pulso dos homens


terça-feira, janeiro 02, 2018


O sangue é o dos outros, os músculos, a noite deles, vícios com batida, Louis Armstrong numa aparelhagem algures no prédio, nas escadas... Desculpa. Estás acordada? Mudou o ano, eu vi um filme e não pensei em ti porque não vinha a propósito, alguém podia ter-me lembrado, havia ali tantas mulheres, e bebiam, fotografavam-se, era uns poucos anos antes de eu ter nascido, tu terias uns meses, talvez já gatinhasses, miúdas gritam lá fora, é a amazónia dos tristes uma noite como esta, a alegria aleija uns passos ao lado, e a felicidade é tão pretensiosa, talvez haja mais gente a calcular pelos dedos se tem o que chega para durar até ao fim da década, isto está tão embaraçoso, jantámos num chinês, éramos tal qual um grupo de estranhos, a falar a mesma língua que eles, aqui e ali calados, não foi muito mau, há muito tempo que não é, agora é simplesmente tolerável, tudo, um cinco de zero a dez, do inferno ao céu, um cinco, mas não consigo pensar em muito mais do que pedir a conta, para todos, vamos ver um filme, mulheres no século XX, uma certa quantidade de gente à procura de gente à procura de uma certa quantidade, sem sustos desta vez, música melhor em vez de respostas, já não há paciência para que nos respondam, parece falta de maneiras, ficamos sentados ali ao fundo a ver, bom ano, sim, não se incomodem por nossa causa, estamos só a pagar, sim, temos de ir deitar os miúdos, graças a deus, pelos miúdos, que maravilhosa desculpa para não ficarmos até ao fim.

sábado, dezembro 30, 2017


se o pior que podes é uma lasca, o que tens de mais duro fica entre as costelas de um poema que se arrasta, mente mal, vai lá fora, mijar na cara dessa noite zarolha, se ao invés da inteireza de ficar de frente, se para a voz que tanto andou pelo fundo dos copos não tens uma frase, se nem para o menos tens uma mosca, e para o mais um insulto, se nem para cortar caminho a alguém, dizer não a tempo, articulando um resto de convicção, então nem a morte te dará saída, daqui, disto ou doutra miséria qualquer, e o trolha que anda pelos desvãos do mundo a trocar as lâmpadas suaves que te permitem olhar de lado, tem o teu buraco escavado, e nenhuma actriz saberá exumar esses restos, por muito que meça as pausas, por mais que apele ao fogo, esses rostos em que o dia não pôde deixar de ser o último, de ti nada ouviram, e tudo o que passaste a limpo, como se os versos de algum modo te justificassem, não era senão a gramática muito simples com que a morte fez um intervalo, pediu um shot, e bebeu-te a vida, de um trago, desejando-se saúde

sexta-feira, dezembro 29, 2017

quinta-feira, dezembro 28, 2017

Manifesto

(FALO POR MINHA DIFERENÇA)


Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou um viadinho disfarçado de poeta
Não preciso de disfarces
Aqui está a minha cara
Falo por minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão estranho
Me irrita a injustiça
E suspeito desse baile democrático
Mas não me fale de proletariado
Porque ser pobre e viado é pior
Tem que ser ácido para suportar
É dar uma volta nos machinhos da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho desmunheca
É ter uma mãe de mãos rachadas pelo cloro
Envelhecidas da limpeza
Acalentando um doente
Por maus costumes
Por má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E por trás o socialismo
E então?
Que farão conosco companheiro?
Nos amarrarão com cordas em sacos
com destino a uma casa para aidéticos em Cuba?
Nos colocarão em algum trem sem destino
Como o barco do General Ibañez
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou à costa
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso os inferninhos
Brindaram com uma lágrima negra
Aos baitolas devorados pelos caranguejos
Esse ano que a Comissão de Direitos Humanos
não se lembra
Por isso companheiro pergunto
Existe ainda o trem siberiano
Da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando minha voz se apresenta muito doce
E você?
Que fará com essa lembrança das crianças
Nos masturbando e outras coisas
Nas férias em Cartágena?
O futuro será em branco e preto?
O tempo em noite e o dia laboral
sem ambiguidades?
Não terá um viadinho em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu homem novo?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil deixo pra você
Que tem o sangue frio
E não é medo
O medo de enfiar facas
Nos porões sexuais por onde andei
Foi passando
E não se sinta agredido
Se lhe falo sobre essas coisas
E olho pro seu volume
Não sou hipócrita
Por acaso os peitos de uma mulher
não lhe fazem baixar o olho?
Você não acredita
que sozinhos na serra
alguma coisa entre a gente iria acontecer?
Ainda que depois me odeie
Por corromper sua moral revolucionária
Tem medo que se homossexualize a vida?
E não falo de meter e tirar
E tirar e meter apenas
Falo de ternura companheiro
Você não sabe
Como custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é arcar com essa lepra
As pessoas mantêm as distâncias
As pessoas entendem e dizem:
É viado, mas escreve bem
É viado, mas é um bom amigo
Super gente fina
Eu aceito o mundo
Sem pedir seja gente fina
Mas riem, da mesma forma
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acha que eu penso com a bunda
E que no primeiro esculacho da CNI
eu ia soltar tudo
Não sabe que a hombridade
Nunca aprendi nos quartéis
Minha hombridade, a noite ensinou
Atrás de um poste
Essa hombridade que você se gaba
Foi imposta no regimento
Um milico assassino
Desses que ainda estão no poder
Minha hombridade não recebi do partido
Porque me rechaçaram com risadinhas
Muitas vezes
Minha hombridade, aprendi participando
Da dureza desses anos
E se riram de minha voz aviadada
Gritando: vai cair, vai cair
E ainda que você grite como um homem
Não conseguiu me derrubar
Minha hombridade foi a mordaça
Não foi ir ao estádio
Sair na porrada pelo Colo-Colo
O futebol é outra homossexualidade encoberta
Como o boxe, a política e o vinho
Minha hombridade foi mastigar a chacota
Comer a raiva para não matar todo mundo
Minha hombridade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Não ofereço a outra face
Ofereço o cu companheiro
E essa é minha vingança
Minha hombridade espera pacientemente
Que os machos fiquem velhos
Porque a essa altura do campeonato
A esquerda rasga seu cu largo
No parlamento
Minha hombridade foi difícil
Por isso não subo neste trem
Sem saber onde vai
Eu não vou mudar pelo marxismo
Que me rechaçou tantas vezes
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que você
Não vou mudar apenas
Por que os pobres e os ricos…
Conta outra!
Muito menos porque o capitalismo é injusto
Em Nova York os viados se beijam na rua
Mas essa parte deixo com você
Que tanto lhe interessa
Que a revolução não se apodreça por completo
Deixo a você esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as gerações futuras
Há tantas crianças que vão nascer
Com a asinha quebrada
E eu quero que voem, companheiro
Que sua revolução
Lhes dê um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar

- Pedro Lemebel 
(Tradução de Thadeu C Santos e Carolina Leal)