sexta-feira, novembro 17, 2017



Queria uma vida negra
o mal dito bem devagar, recuando
para vir lembrar duas coisas ou três
com os dentes cuspidos apanhados do chão
um silêncio de torre altíssima
a fazer-lhes pontaria
e despenhar-me como um trovão

a guerra no quarto de chávena e roupão
o relógio cortando fiambre das horas
depois de ter almoçado o cuco
a cadeira ali muito quieta
como se estivesse amarrada
e o espaço agredido cinquenta anos
de cela, conversas dos dois lados
um soluço com uma gaiola só para ele
móveis guardando segredos e dores
de árvores imundas
uma fotografia gasta pelos olhares
dos rapazes em fila e pijama às riscas
o arquivo das confissões à força
de insectos ratos e até bichos
à margem dos dicionários

faço um gesto lento e curvo
como a aurora sobre a Terra
grito viagem, do nada, e oiço-a
fazer-me as malas sobre a cama
um comboio parte dali mesmo
a toda a pressa
e ainda antes do acidente
vultos lançam-se de telhado para telhado
enquanto a cidade se reúne à volta

certo café belo e perdido
em que a espera nos fez elegantes
para onde envio ainda cópia
de todas as cartas
onde vi rostos que só de rodar
seguindo alguém se transformavam
onde à hora que pedíssemos anoitecia
setas desferidas, de tão reescritos
debaixo dos versos
havia garras de gerações de rouxinóis
e dar com aquilo era sempre
tomando outro caminho
ninguém se perdia até a memória deixar
de escoltar-nos, o sangue mais escuro
os poderes abandonados
a própria loucura recuando

de corda ao pescoço passei um último dia
perto do lugar onde dormem os enforcados
o que sonhavam também sonhei
atirado do alto de mim abaixo
raspei os astros do fundo
onde os ecos caçam para se alimentar
esfrego os olhos, conto os reinos um a um
erguendo a candeia dos renegados
escrevo a essa luz um som descendo
as escadas, queda tão livre
como lenta ao poço de água limpa
onde flutuam os cabelos
um vestido despe-se sozinho
e um perfume ainda chora por ela

quarta-feira, novembro 15, 2017


Há semana e meia saltando de sonhos
em movimento para rabiscar umas frases,
um xis no mapa,
a direcção para o ouro,
e às tantas já não passo,
fico deste lado, de mãos nos joelhos,
a soprar os meus moinhos,
coisas absortas e sonolentas,
livros, papéis, fortificações ridículas.

Apago e acendo a luz, continuo só.

No abafo da fadiga vejo crescerem
musgos e bolores brilhando
na penumbra.
Movimentos no fundo,
ausências cada vez mais familiares.

A sombra deu em doida,
escangalha-me os relógios,
alimenta-se das tripas e agoniza
pelos cantos,
dorme com o teu vestido.

À cabeceira, enfiado numa caixa de fósforos,
um bicho afina para mim
a melodia do mundo,
dá-me corda, um ritmo, esse nó-corredio
que me desce ao poço.

Na caixa, deixo uma nesga
para que olhe comigo o tecto
e onde lhe deito as moscas
que me mordem.

Desvio as cortinas, longe
ouço vibrar uma tempestade.
Um cão de guarda às miragens ladra
alinhando o horizonte,
anima-me, faz-me descer
para a ideia de andar doce por aí
a roubar as tardes,
os bolsos largando nêsperas
e a luz desassossegando o reino.

Se chove,
a chuva enche as flores
deixa-as tombar largando
esse perfume de dilúvio
pelos declives açucarados
que levam aos espaços de recreio,

fontes, chafarizes,
as estátuas segurando a corda da roupa
e da pardalada,
junto com o mobiliário abandonado
de que o jardim se apropriou.

Um sofá de pulgas
e um televisor com o ecrã arrancado
ao pontapé, enquadra um plano soberbo
deste fim de tarde.

Ando mais devagar, encho a rua
de solidão,

vejo-a descer, retocando-se –
a noite, mulata endiabrada
trocando beijos.
Vou no encalço,
sigo os meus sonâmbulos
para os lados do seja-o-que-deus-quiser.

Pus baixinho o coração, frio,
noite inteira a ouvir uma e outra vez
as mesmas histórias,
por favor a um mundo acabado.

Virando as páginas ao jornalzinho
da eternidade, tirei uns versos,
o pouco de realidade e esta sensação
de permanência que nos faz ganhar raízes,
ancorar nestes lugares infectos
até ao gole radioso.

O barulho do fósforo rasgou um
suspiro à luz vesga que nos ilustra.
Colagens, cigarros, vastas pausas
na moleza de gestos sem osso,
rodando o copo –
pequeno coreto onde dançam
para essas canções redondas que o peito geme,
cansados, trôpegos reflexos.

Então,
metem-se-nos ao caminho
umas tipas sem rosto
adivinhando a nossa sorte,
facilitando o azar.

Demorou mas saí
oferecendo explicações à paisagem,
fundos de ruas malcheirosas,
ecos sem saída,
flores aos ombros umas das outras
nesses canteiros
onde o que mais bebem é mijo.
Como elas, sou levado em ombros.
Os meus fantasmas todos cantando.

Como explico isto,
a alegria de ir pela vida fugido,
fazer parte do coro
mijando às portas da alvorada.

"Poesia", de Eugénio de Andrade



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, novembro 14, 2017

Entrevista a Germano Almeida



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


segunda-feira, novembro 13, 2017


Um estado de exaltação nervosa, estudando as saídas, o horizonte esfrangalhado, como se antecipasse uma chegada transformadora, uma lança perfurando num golpe de força antiga esse cruzamento de sensibilidades, neste corpo de desencontros, com as suas variações domésticas, uma música não completamente coincidente, que faz estremecer tudo no seu lugar, os objectos parecem valsar uns passos além dos seus contornos, deitar-nos um olhar lânguido, mas se os focamos logo se recosem, despem o vestido que ainda há pouco era todo um salão de baile, e da nossa tontura vienense caímos de volta nesta luz aberta à faca, com vista sobre o rio, tristes margens de perfis industriais. A continuidade é um desgosto, só um livro despedaçado, um romance que corresponda a este estado de quem se sente atravessar as suas formas, diluir-se por uma incapacidade de preservar a sua identidade, o homem que levanta um copo para beber mas se confunde com o líquido, tremem-lhe os lábios, não consegue engolir esse gole de uma água que em vagas na boca ganha o sabor de um silêncio garganteado, como se tivera entre os dentes os corpos de coisas que ia dizer mas desistiu. É difícil levantar-se de si, e pior, quando te olhas já estás uns passos além, talvez por isso um baralho de cartas com figuras expressando-se por signos enquanto dançam no intervalo das nossas incertezas seja capaz de ganhar ao talento das mãos para gerir acasos, um livre arbítrio, fazer gestos imprevisíveis até para quem as comanda, como se entre cada coisa que lhes exigimos, e a que obedecem com a maior servileza, tirassem algo para si, um tique delas, uma vénia ao imprevisto, e é possível que com algo variável nas mãos, esse ritmo de acasos construa uma leitura enleante, não fossem as minhas, contudo, dessas que usam de excessiva delicadeza, para logo que se lhes retira o açaime se porem a dobrar, esgarçar, a cheirar uma falha que permita romper, rasgar, destruir, e tantas vezes no próprio rosto, noutra parte do corpo, passam vigilantes como gatos e perdem o juízo como cães, buscam algo fora do lugar, uma saliência, e de uma imperfeição mínima armam um cerco, ferem, fazem a morte por mil cortes, e tê-las assim, em cima a vida inteira, sobreviver-lhes, talvez isso explique o nervoso, o de um ser por si mesmo acossado.


The mind is its own place, and in itself
Can make a Heaven of Hell, a Hell of Heaven. 
John Milton

Não sei o que me acorda,
para quê?,
recolho os pedaços e levo da cama
este meu sonho interminável,
meu tempo perdido.
Há qualquer coisa,
uma dessas dores de cabeça,
o meu ombro
atravessado por uma flecha.

A claridade murmura entre as frinchas
e o rádio no andar de cima
larga outro domingo.
Lá fora cirandam vultos amolecidos
pela melodia com que os pássaros
estendem os caminhos da manhã.
Aqui, apago todas as minhas luzes
e espero no corredor
com um vaso no colo
e, sozinha,
uma flor que de tanto esperar
já só a mim cheira.

A torneira aberta depois do banho,
fio de uma história que se embaraça
sempre que volto a isto.
Brincos, coisas perdidas,
uma chave que já não abre nada,
a estrela caída
que apagámos com o cobertor.

O fascínio do estrago olhando em volta
a perfeição da dor.

Com a mão sinto o rosto apagar-se.
A minha sombra veste-se de mulher,
vai, vem,
e, de cada vez,
traz-me de volta alguns gestos teus.

É bom que seja demasiado tarde
e já não voltes.
Teremos sempre a banalidade do fim.


II

Soletrei junto ao teu corpo todos
os idiomas da treva.
Hoje gaguejo de propósito,
não acabo, deixo-me a meio
das coisas que ia dizer.
Empurro tudo o que esqueceste,
as roupas penduradas.
Há duas noites que
se enfiou nelas um grilo e
não sei como tirá-lo dali.

Endoideço com formas,
padrões no silêncio.
Agachado,
de olho no buraco da distância,
faço tempo. Oiço o mar,
chega-me à boca o gosto
de água salgada.

Ainda guardo o desenho que fizeste:
uma maré baixíssima
devolvendo suicidas e náufragos
enquanto o vento rói na praia
as vértebras de navios sem casca ou nome.

Coisas de nada exaltam-me,
dividem-me,
depressa me sinto numeroso
e logo se junta uma maioria em mim
que me manda sair à rua.

Saio então,
pouco antes de acenderem os candeeiros,
quando se esgota a prosa seca das cigarras
e a pauta nocturna
é distribuída pelos grilos.

Somos muitos mas cedo nos perdemos.
Uns atrás disto, outros daquela,
há um que sai atrás daquele...
Dá para tudo.

A cabeça num embalo para o inferno.
Quando já somos poucos,
um leva-me o assobio, outro fica em silêncio
e o que me resta traz a memória mórbida
de uma canção que desce
estas ruazinhas escondidas.
Passos bebidos,
doce e lentamente.

Olho os canteiros onde os gatos
enterram agonizantes restos de vida.
A chuva bebe da garrafa
que me caiu da mão.
No bolso sinto aquela pedra
que guardei noutro poema.
(Se te visse agora
juro que te abria a cabeça.)

Praças imensas, quase desertas,
a visão magnífica
de uma cidade rendida
sob a mira de dois canhões enferrujados.
Aguardando, calculando distâncias.

Quando chega a hora,
recolho os meus.
Viriatos nestes cafés gozando a ruína
do império.
Guiados pelas constelações
à mesma rota maldita,
mendigando nas ruas uma esmola,
um verso limpo, um corpo
que soçobre entre as aspas do desejo.

Cruzamo-nos entre os corredores
de hotéis imundos,
uns cheios de sorte outros nem tanto.
Cada um faz o que pode por si.
Depois regressamos juntos a casa
onde sempre nos espera
a banalidade do fim.

sábado, novembro 11, 2017




Vamos ler sobre isto mais tarde,
debaixo da mancha do café, como o crime
corrigiu a postura do local em redor,
cada detalhe admirado de si,
supondo que possa ser uma pista.
E como ele, sentado no café em frente,
empurra o copo, sopra um suspiro
tão longe como isto. Pousa o livro
que finge ler, e limpa o grito
como o cano de uma espingarda.

Um vento mal dormido virá por aí
levantando folhas a tentar explicar-se
nuns modos exaltados. E então, que foi?
Diz que viu um vestido nos bosques,
pendurado no galho de uma árvore
quase deitada. E nós, um para o outro,
encolhendo os ombros, sem esconder
a alegria, pois precisamos de alguém
que o faça por nós. Sacrifica-se
uma jovem mulher para que os velhos
meio dissolvidos entre torsos mutilados
nos jardins se sonhem detectives.

O que te descrevi demora, podem
passar-se dias. As flores habituaram-se
a crescer de ouvido nos muros.
Vem, senta-te. Por aqui
distraímo-nos com velhos jornais,
as notícias de regiões longínquas
em que se misturam tempestades,
cetáceos arrojados às praias e feitiçarias.

Vê como faz o miúdo: anota, tira medidas,
põe de lado no mesmo diário
onde vai enterrando velhos ossos.
Traz há meses os rascunhos, mapas,
a tese central do seu primeiro conto.
Dita-o baixinho ao colibri que,
na estória, vai dar de comer ao dragão.

Assim estamos, e passam-se melhor
estes dias curtos em que, pelo fim da tarde,
se soprares na direcção do sol,
a luz já treme toda. A porta da noite
deixaram-na aberta, e o desejo dá pena,
este que ficou para o fim, a colar cacos,
oferecer lume à memória.
Repletos de pulgas, baratas e percevejos
nos interstícios de coçados gibões dourados,
retomamos a navegação de costas
sobre a erva, bebendo o intervalo entre
as estrelas e o pingo ocioso dessa gota de
água filtrada por um velho cântaro.

Nisto, partilhamos a admiração pelo puto
que tomou dos pardais a entoação,
a velocidade, o seu conhecimento
da floresta, que aqui há dias, com a fisga,
abateu um cometa. Foi cair ileso,
aí mesmo, onde há anos nos doía
o vazio da imaginação.

Os meses custam, noites avariadas
de um dormir sem dormir...
Andar tinha-nos curado um pouco,
ir por esses lugares de que os que se matam
acabam íntimos – a parte velha
da cidade, certas zonas despegando-se,
mas basta ver o êxtase que foi
a passagem de um piano, aos tropeços
nestas ruas, doce como um concerto para gatos
que a lua conduzia. Agora um crime,
uma jovem soltando o último fôlego
nos nossos braços... Perdoem-nos
o prazer de uma última imoralidade.


quinta-feira, novembro 09, 2017

Morabeza, um festival literário em Cabo Verde



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

[As antas (Cantinho & Cia) já vieram acusar a incoerência de ter aceite o convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde para ir lá ver (enquanto jornalista - com o óbice de me disponibilizar para moderar uma das sessões) como se desenrolava o festival literário. Porque um tipo não pode manifestar-se contra os festivais, ser crítico e, ao mesmo tempo, saber do que fala. Tem de resignar-se ao ermitério, só lhe restando ficar à margem de todas as manifestações culturais do pífio tempo que lhe foi dado viver. Por este prisma, toda a crítica devia ser simplesmente desdenhosa em relação ao que não a convence.]

Nos primeiros dias do mês, a Cidade da Praia estreou-se enquanto palco de um festival literário, reunindo 40 autores lusófonos, metade dos quais cabo-verdianos, num programa que diluiu o torrão de açúcar das nossas letras no chá de um país hospitaleiro

Dez ilhas como migalhas sacudidas da saia da Criação quando esta se levantava da mesa de trabalho. Descaídas sobre o lado esquerdo, no coração do Atlântico, assim vieram a dar com elas os portugueses,  no século XV, como uma frota estática de basalto negro, sem uma só alma a bordo. Virgens até tão tarde, acabaram por ser testemunhas do que houve de mais aventuroso e sórdido naquele entreposto estratégico entre Portugal e o Brasil, e que foi chave nas rotas do comércio de escravos. Mas desiludamos os que entregam facilmente o ouvido a essas lamúrias sobre o nosso cruel passado como colonizadores, bandeiras de quem se apresenta como justiceiro tardio e vai ao passado fazer caça para cozinhar a má-consciência que depois serve fria aos outros. Vale mais chegar a esse país com o assombro de uma descoberta e uma inquietação que não se precipite em juízos bacocos sobre o passado, que afinal foi num mundo inteiramente diverso do nosso. É bom, de resto, retirar algo da paciente sabedoria com que o poeta José Luíz Hopffer C. Almada, a escrever sob o nome de Ezeami di Sant’y Águ, à cabeça de uma série de micro-poemas em crioulo notou que: “Nungen e ka abusulutu:/ Si Dios ka diskunfiaba di si kabesa/ el ka ta kriaba Diabu [Ninguém é absoluto:/ Se Deus não tivesse desconfiado de si próprio/ não teria criado o Diabo].
Em Cabo Verde, na Cidade da Praia, entre 30 de outubro e 5 de novembro decorreu Morabeza – Festa do Livro, um festival literário na linha dos que temos visto multiplicarem-se por cá, mas com a vantagem de chegar àquele país insular não só como uma estreia, mas mais que isso uma resposta à vontade do país  chamar a si o mundo, tentando também “colocar no mapa” a sua literatura. Isto mesmo enfatizou Abraão Vicente, ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde.
Foram cerca de 40 os autores lusófonos que participaram no programa, a maioria escritores, mas também artistas, académicos e figuras destacadas da sociedade cabo-verdiana. Dividindo-se entre mesas de debate, concertos, sessões de poesia, acções de formação, visitas a escolas e universidades, foi evidente o esforço da organização por promover um encontro entre algumas das figuras consagradas bem como emergentes da literatura do país e o pelotão estrangeiro que a Booktailors (a empresa contratada para organizar o evento) sempre mobiliza nas iniciativas que tem a seu cargo. Não foi surpresa assim encontrar na Cidade da Praia a habitual embaixada volante: José Eduardo Agualusa, Mia Couto (que por motivos pessoais à última não pôde meter-se no avião, mas prometeu que virá na edição do próximo ano) Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz, Alexandra Lucas Coelho, Francisco José Viegas... Em entrevista a este jornal, Abraão Vicente fez, no entanto, questão de sublinhar que as escolhas dos participantes foi decidida pelo Ministério da Cultura e que a Booktailors se limitou a tornar possível que pela primeira vez o país recebesse uma iniciativa que, a um tempo, pretendeu ser um “palco internacional” e “recativar a literatura do arquipélago”.
O ministro referiu ainda, numa entrevista concedida à “Renascença”, que este festival assumia a pretensão de marcar um corte com a última década e meia, em que “a Biblioteca Nacional e as políticas editoriais do Estado estiveram descativadas”. E com todas as reservas que anteriormente levantámos à centralidade que, em Portugal, tem assumido a Booktailors na organização de uma série de iniciativas de promoção do livro e da leitura com fundos públicos, é indesmentível que, no que respeitou à organização do Morabeza, a empresa fez um trabalho impecável. A única mancha e a queixa que mais vezes se ouviu da parte dos visitantes bem como de alguns dos participantes cabo-verdianos prendia-se com o preço dos livros trazidos de Portugal.
Algumas vozes sublinharam o facto de dificilmente o festival poder reclamar o título de “Festa do Livro” se se tiver em conta que a muito limitada oferta de livros à venda no átrio da Biblioteca Nacional (onde a maioria das iniciativas decorreram) estava completamente desfasada do poder de compra dos leitores num país onde o salário mínimo é 110 euros. Os responsáveis da organização notaram que não podiam ter feito mais do que fizeram, uma vez que foram mantidos os preços de capa dos livros em Portugal, e que não só não foi cobrado qualquer valor pelos custos de importação como ainda havia uma pequena secção de livros em saldo. A um décimo do preço dos outros, esses sim estavam a preços razoáveis para os bolsos dos cabo-verdianos, mas nem a diversidade nem a escolha eram particularmente entusiasmantes, e com pontuais excepções, foram privilegiados os autores que integravam o programa do festival.
Quanto às sessões e debates, nada do que vimos destoa e nem aquece ou arrefece o sangue a quem por cá já se habituou a este género de eventos, onde impera a lógica conversacional que, naturalmente, resvala tantas vezes para a tagarelice, temperada pelo inescapável anedotário, as confissões mais emocionadas, uma ou outra sugestão de leitura e alguma citação mortífera que nos sacode de um estupor de aluno em sala de aula e nos lembra de que é a literatura o eixo difuso desta ‘festa’ sempre um tanto murcha.
Felizmente há a própria ilha, a sombra que tentava fugir-nos atarantada, pedindo clemência a um sol que reina ali o ano inteiro. Houve o impressionante reencontro para os escritores portugueses com a antiga colónia penal do Tarrafal, onde uma escola vem há décadas amenizando uma dor que ainda revolta. (E disto nos dá melhor testemunho o poema de Jaime Rocha que publicamos mais abaixo.) E há essa gente com “o mar cavado na alma", um sangue tão vivo de murmúrios, uma gente raríssima, que conta com pouco mais de meio milhão no arquipélago e o outro meio espalhado pelo mundo, numa diáspora que, à proporção, tem poucos rivais. E há a “pele escura dourada”, os “híbridos mistérios da mestiçagem”, no rosto expressões dividas entre um peso indecifrável e uma facilidade em pintar um sorriso em “aguarelas de ternura”. É um país pobre, onde o tempo ainda estala cada uma das suas articulações, e não é difícil sentir que nele somos como fantasmas num território com algo de tão próximo, familiar, e que, de súbito, nos atinge na lonjura dessa vertigem que nasce da sensação de que ali nos bastaria apenas “a água fresca/ o cântaro e o trovão”, indo por aquelas estradas esverdinhadas, dando o ouvido a uma língua que corta o ritmo do português e nos faz entender, como diz o poeta cabo-verdiano António de Névada, que a sua “voz é esta mão desordenada que deflagra,/ não a harmonia bíblica, a profana dissonância/ do espanto!”



POEMA SECO
de Jaime Rocha

Bastava uma pessoa para que o meu peito
rebentasse de agonia nesta erva seca.

Bastava uma pessoa ter deixado aqui
o sangue, os ossos e as suas tripas
se tivessem espalhado ao vento.

Uma pessoa, cinquenta, cem, mil, tantos
braços juntos, tantos gritos.

Bastava uma pessoa, um corpo nu
a apodrecer ao sol para que das suas veias
nascesse outra vez o mundo e o mar
falasse contra o esquecimento.

E agora neste campo seco, neste dia
luminoso, estão à nossa espera,
à espera dos poetas, a professora Natércia
e os seus alunos da Escola do Chão Bom.

São os seus rostos, as mãos pequenas
nos cadernos, os olhos deslumbrados,
que enchem de fulgor este poema seco.

Há um silêncio dourado nestes muros,
um vazio insuportável, uma memória
que rasga a ausência das casas.

Aqui, debaixo desta árvore que sobrevive
ao tempo, do lado de lá do portão grande,
o túnel do mal, uma criança, cinquenta, cem,
mil, tanta esperança junta à volta da professora
Natércia, as crianças do Chão Bom escutam
a voz dos poetas como se dissessem,
em uníssono: - Escrevam palavras para nós.

E o poeta leu para as crianças do Chão Bom:
- Uma pessoa, cinquenta, cem, mil, tanta
morte autorizada, mas este poema seco
que vos deixo ainda tem lágrimas dentro. 

Nota: Este poema foi escrito após a recente visita que fiz, com outros poetas, ao Campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, integrado no Festival Literário Morabeza, onde tínhamos à espera a professora Natércia e a sua turma do 9.º Ano da Escola Secundária do Tarrafal. Agradeço a estas crianças serem uma presença viva e de esperança num lugar com uma memória insuportavelmente triste. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

"Mea Culpa", de Carla Pais, Porto Editora



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sexta-feira, outubro 27, 2017

Alface homenageado em Montemor-o-Novo



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terça-feira, outubro 24, 2017


«Garrafa de cerveja no pedestal da estátua!
Isto Fritz, é a era, o hoje frente ao passado:
Contemporâneo». E a paixão permanece.
Em vez de acções, aromas. Quartos, em vez de crónicas. 
Ezra Pound

Há um sino que se alonga,
se espreguiça,
alargando a hora em que deixas o quarto,
sais a raspar a pele húmida de sono,
o corpo contra os ângulos
mais salientes.
Passos que avançam em meandros de chuva,
ruas líquidas
ao sabor de luzes distantes.

O vento arrasta desde tempos
sérios, antigos,
ordens enrouquecidas.
Belisca, deixa-te em sentido.
Por cima, um bando
de estrelas vão apostando entre si
que caminho levas hoje.

Como uma rima perdida,
tens à perna o cão do acaso,
que te salva o traçado
alçando a pata em cada esquina.

E aí tens a esplanada-café-bar-buraco
onde leste noites e noites,
deste alimento à rosa
desse pensamento decaído e infecto.
Nem vermelha, nem
branca,
uma cor intermédia a tudo.

Quietos, revistados
de cima a baixo,
é com gosto que nos deixamos roubar.
Uma canção que nos vira os bolsos
e dos trocos
vai juntando um corpo.

Estranho lucro que tiramos
repetindo furiosamente os mesmos lugares,
noite após noite, quase gemendo
de solidão.

Sob a teatral e débil iluminação,
uma gente ilustrada
perde-se no fundo.
Flores de fumaça,
ecos inquietantes, moscas 
levando notícias.
Histeria, confissões de trincheira.
Restos do dia.

Aladas-de-horror,
reúnem-se as personagens de uma só fala,
estudando mil intenções possíveis,
a projecção de voz, um jeito
de roubar a cena
com esses farrapos de frases,
gestos sem sequência,
o sorriso pisado de quem delira mais
do que acredita.

A uns passos, um jardim fantasma
onde atracam navios
dos portos mais improváveis.
Sol e lua misturados numa agulha,
uma gota de infinito
aos tropeços no sangue.
Galáxias desaguando devagarinho,
adoçando-o.
E as pulsações seguintes:
fracas, doces...
Nem a respiração se defende.
A certa altura deixas até de dar por ti.

Tudo em volta cresce de tom
e escuta-se o toque impreciso
que desperta a flor-farol
dos que aqui estamos à espera
da aurora
e da próxima aurora,
juntando noites suficientes
para o romper de um novo dia.



segunda-feira, outubro 23, 2017


Um perfume entorna a boca da memória,
olhos escuros, indo
como se crescessem ainda
sobre distâncias de cegueira.

Árvores sem vida,
os galhos como um velho arquivo
de pássaros banais,
e a luz cortada
dos caminhos em que sentimos
a curvatura da terra.

Ficando tarde,
os candeeiros suspensos, balouçam,
gemem nestes bairros
onde perduram alguns da geração
das varandas, indiferentemente
elevados sobre um tempo que nunca
lhes disse grande coisa.
Sangue antigo
que o coração já só coça,
e de que aos poucos se enjoa,
mas bate ainda, mais por hábito
que por gosto.

Debaixo das estrelas,
da sua adorável dispersão,
estas demoras mais sombra já
que corpo, trocos com que a alma
se desfaz em soluços
entre morosos vinhos
e canções sem vergonha, só doçura.

Aí estão, caídos e dispersos,
como se os deuses
houvessem virado os bolsos
e pago outra noite à dor.

O copo deixa-te um reflexo
no fundo,
os dedos que o envolvem longos
como presságios.

A sumária inscrição de néones,
o assobio num ânimo compositor
e cada um dos teus passos
a que os grilos
vão deixando reticências.

Fazes assim essa linha
entre a espera magoada
dos antigos cafés
e os bares que esquinam
com a nociva idade do desejo.

Tudo o que já quiseste,
tudo o que quererás alguma vez.
Um traço de mel no sangue,
um verso onde ameigar a tarde,
e acabar os dias de roupão,
atrás desse comboio de corda.
Passar mais tempo
à varanda, regar umas flores,
vigiar a rua
enquanto pensas mais e mais
na morte
sem entender a diferença.



domingo, outubro 22, 2017

O inefável


Eu morro estranhamente... Não me mata a Vida,
Não me mata a Morte, não me mata o Amor;
Morro de um pensamento mudo como uma ferida...
Não haveis sentido nunca a estranha dor

De um pensamento imenso que se enraíza na vida
Devorando alma e carne, e não chega a dar flor?
Nunca carregastes dentro uma estrela adormecida
Que vos abrasava inteiros e não produzia fulgor?...

Cúmulo dos Martírios!... Levar eternamente,
Descoroçoante e árida, a trágica semente
Cravada nas entranhas como um dente feroz!...

Mas arrancá-la um dia numa flor que abrisse
Milagrosa, inviolável!... Ah, melhor não seria
Ter entre as mãos a cabeça de Deus!

- Delmira Agustini

quinta-feira, outubro 19, 2017

Colson Whitehead, "A Estrada Subterrânea"



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O real é como o fantástico:
mede o mundo com medidas arbitrárias
 
Rainer Maria Rilke

A tarde levanta as suas âncoras rosadas
e parte,
deixa ao frio todos os vestígios.
Sombras misturando-se ao sal e à neblina,
charcos, bichos d’água,
um braço de canteiros
com as flores que lhe restam
farejando na treva.

Negros, mínimos sinos,
espicaçados pelo vento –
sem cor, quase só ruído e cheiro –
soam longamente
enquanto as ruas se estreitam,
já sem luz,
e a distância nos diz coisas incríveis.

Queres as horas certas, perguntas,
pedes tempo a qualquer corpo triste.
Deixas-te amparar no primeiro café.
Estrelas extremas
sobre estas mesas de aço,
pedras assobiando ao passario.

Qualquer fantasia já vai juntando
umas letras, aprende a escrever,
escolhe um veneno.

Ócios nocturnos,
a noite mesma
um ritmo de cotovelos, este avolumar
de páginas enfurecidas.
Deserções, desacatos, versos imperdoáveis.

Que idade perdida,
que cheiro a desinfectante,
e a veemência destes velhos
contadores de lérias-lendas,
acorrentados aos seus inúteis lemes –
em cada bolso um reino
só de traças.

A afundar-se há anos a um canto,
um piano decrépito
acarinha alguma balada profana –
tão cheia de escuridão,
como se dela bebêssemos noites futuras.

Recolhemos a nossa morte
na vida dos outros.
Por isso vens,
fazes-te vítima de tudo:
as coxas, meias de malha,
mãos de louça antiga,
sardas
e que boca, que madrugada adolescente.

O olhar, pequeno vadio
de cor perdida,
segue apalpando o que tem por diante,
antes que também esfrie
e o desejo escureça
inteiro
numa garrafa.

Irás depois, sem nada,
em busca de algum espelho doce
e de uma lâmina lenta
que te rasgue um último sorriso.