sexta-feira, abril 20, 2018

Roberto Juarroz V


A iniciativa da minha sombra
ensinou-me a ser humilde.
Ela desenha-me de forma indiferente
sobre os gastos assentos
dos comboios da madrugada,
sobre os muros sem costuras dos cemitérios
ou sobre a penumbra dos atalhos
que atraiçoam a cidade.

O contorno não interessa
nem tampouco as mancas epígrafes.
A minha sombra desmente-me a cada passo,
despista-me ao virar de todas as esquinas
e não responde às minhas perguntas.

A minha sombra ensinou-me a adoptar outras sombras.

A minha sombra soube colocar-me no meu lugar.

...


Devemos conseguir que o texto que lemos
nos leia.
Devemos conseguir que a música que escutamos
nos oiça.
Devemos conseguir que aquilo que amamos
pareça pelo menos amar-nos.

É preciso demolir a ilusão
de uma realidade com um só sentido.
É necessário por agora
que cada coisa tenha pelo menos dois,
ainda que no fundo saibamos
que se algo não tem todos os sentidos
não tem nenhum.

Devemos conseguir que a rosa
que acabámos de criar ao olhá-la
acredite em nós por sua vez.
E conseguir que logo
engendre de novo o infinito.

...


Tenho um pássaro negro
para que voe de noite.
E para que voe de dia
tenho um pássaro vazio.

Mas descobri
que os dois se puseram de acordo
para ocupar o mesmo ninho,
a mesma solidão.

Por isso, às vezes,
tenho por hábito tirar-lhes esse ninho,
para ver o que fazem
quando lhes falta o retorno.

E assim aprendi
um incrível desenho:
o voo incondicional
no absolutamente aberto.

(para Laura, todavia)

...


Edificar por uma vez só um dia totalmente claro
e deixar que nos seus múltiplos e abertos aposentos
cada forma se comporte como quiser.

Que a mão mude então a sua imagem
e o pássaro a sua
ou que ambos troquem os seus ofícios
de encurralar partículas do ar.

Que o tempo caceteiro fique a um canto,
baixe a sua voz a morte
e o relógio da torre
comece a andar para trás ou à deriva
ou se proclame nuvem e abandone o seu poiso.

Que hoje deixe a sua forma de ser hoje
e tome a forma de ser sempre
ou pelo menos a da água,
uma água transparentemente só,
um resumo da água.

Que as coisas escapem das suas formas,
que as formas escapem das suas coisas
e que voltem a unir-se de outro modo.

O mundo repete-se demasiado.
É hora de fundar um novo mundo.

...


Os objectos começaram a estalar por sua conta,
como se estivessem fartos do insuportável ascetismo
de carecerem de vida.

Assim um vaso parte-se sem que ninguém lhe toque,
um quadro desloca a sua moldura,
os armários espalham-se em esconderijos autónomos
e as gretas da casa do homem
crescem com maior rapidez,
como se perseguissem uma arquitectura diferente
ou quem sabe um habitante diferente.

Assim também as pedras saltam sobre as árvores
e rompem como se fossem frutos ao cair,
o bulbo da lâmpada queima-se
enquanto está apagada
e os lápis abrem-se sem uso
e abandonam a sua medula mineral
de alheada grafite,
renunciando à sua inerte função
de transladar a um baluarte mais seguro
a esquiva corrente que arrasta as palavras.

Talvez um inesperado tropeço do imóvel
tenha levado os objectos
a imitar a promíscua vacilação do que está vivo
e a estatura quebrada e desacompanhada da morte.
Ou talvez se trate tão-só de uma falha
na continuidade de uma forma extraviada
ou do contraditório cansaço
da parte mais quieta do discurso das formas.

Seja como for,
ainda que os objectos estalem por sua conta
até que o mundo se faça em pedaços
ou mesmo quando possam estalar para dentro
e de certo modo esgueirar-se do mundo,
não poderão abolir o abismo
que sempre separou a mão das suas múltiplas sombras
ou o pé da suposta curva da estrada.

E acima de tudo seguirá o seu errático impulso
o fio da solidão
que hipnotiza com a sua cegueira sem trevas os objectos:
pensar,
pensar com eles ou sem eles.

Pensar:
deitar vazio sobre o vazio.

...


Derrubamo-nos
sem perder sequer o hábito dos nossos gestos,
por exemplo manter os olhos abertos,
a mão na posição que toma quando amamos,
o osso no seu silêncio,
a boca na iminência
de dizer ou calar algo.

Talvez nos derrubemos
sem que caia o que cada um é
e isso siga flutuando como uma série de espasmos
algo mais furtivos pelo ar.

Pode ser que os gestos que se aprendem não se percam,
mas o aprendiz sim.
Se assim é,
talvez uma palavra entre muitas
possa ter sido dita para sempre.

...


Estão a ditar-me coisas,
mas não de outro mundo ou outros seres,
antes, mais humildemente, de dentro.

Mas quem está dentro,
além de estar eu?
Ou talvez não esteja eu
e tenha deixado o meu lugar
para que outro me dite?

Se isto é assim,
não importa que o ditado
ninguém o compreenda.
Não importa nem sequer
que o compreenda eu.

Ser não é compreender.

...


Insistir demasiado em si mesmo
é gastar sem sensatez a substância do mundo
e abusar da luz e seus reflexos,
da dosagem aberta do olhar,
da distribuição das cores
e também do coração das trevas.

Talvez fosse preciso
moderar, recortar o existir
e deter a prepotência de ser-se um.
E que isso nos permitisse morrer menos
ou simplesmente não ficarmos sem fundo,
como patéticos odres
que não souberam conter o seu vinho.

Insistir demasiado em si mesmo
é transtornar as figuras visíveis
e sujar as invisíveis
com o redutor alcatrão da nossa fúria.

É preciso insistir noutra parte,
por exemplo ali onde as linhas retrocedem
e as mãos se aguentam
para evitar o tacto sem regresso.
Ou além, pelo menos,
onde sentimos como se desgastam
a pele tenaz do pensamento,
as secreções de todos os amores
e as solitárias metafísicas
dos nossos últimos sapatos.

Sim. É preciso insistir noutra parte.

...


Trazer o horizonte ao nosso lado,
içá-lo na rua como uma bandeira,
incendiar com o seu corpo nu
o ar, o coração e os cantos
e fechar as janelas para que não desapareça.

Iniciar então a sua conversão,
até pô-lo firmemente de pé,
como uma árvore ou um amor desvelado.
E colocar o horizonte na vertical,
numa fina torre
que nos salve pelo menos o olhar,
até acima ou para baixo.

...


Morrer, mas longe.
Não aqui,
onde tudo é uma avessa
conspiração da vida,
até as outras mortes.

Morrer longe.
Não aqui,
onde morrer é já uma traição,
mais traição do que em outra parte.

Morrer longe. Não aqui,
onde a solidão descansa aos poucos
como se fora um animal estendido,
travando o seu impulso de loucura.

Morrer longe.
Não aqui,
onde cada um dorme
sempre no mesmo sítio,
ainda que desperte sempre noutro.

Morrer longe.
Não aqui.
Morrer onde ninguém nos espere,
onde haja lugar para morrer.

(para Jorge Luis Borges)


quinta-feira, abril 19, 2018


A tua vida é grosseira, dorme mal, por aí, o teu espanto é tão inútil, tão desencontrado com as coisas ao teu nível, levamos para cama alguém e o estranho somos nós, o prazer esquiva-se, deixamos o rosto ao lado, sobre o ombro dela, uma mão passando o fio entre os sinais, usamos o desenho do corpo que retraçamos, tornando mais firme o contorno para que se perca com a nossa atenção muito alto, abutres desse encanto, as voltas no ar, um cerco a criar fome, e nisso escapamos a nós próprios, esperando que lhes falte as forças para termos a nossa hora. Uma cama, um prato. Cada gesto, um garfo. A boca entre duas pernas, o gosto consolador como o de falar a própria língua ao fim de meses no estrangeiro. Retomar o calor emotivo das palavras certas. Não me saberia a nada a tua cona em inglês. Mas assim, na praia, despida como uma índia, usando os gestos e a respiração para dizer o que queres, onde, quanto. Temos um preço a pagar pelo desejo, a memória, a demora, o modo como o corpo se torna uma roupa largada uns passos para lá daquela cama, da forma como a boca deixou uma frase a escorrer-te do coiso. Há uma idade para falar de amor, depois deixa de ter interesse. Cada um sabe o que lhe trespassa a solidão, como dos outros lhe basta recortar um instante, ficar até tarde, cozinhando finais alternativos. Entre dois perde-se tanta coisa, e por isso vamos contando a outros, dentro de nós, esquecendo-nos de nós, da primeira vez que as baixaste, da última, da melhor, da pior, até ser indiferente fechar os olhos, ir buscá-la ou assistir a um porno.

terça-feira, abril 17, 2018

"Poesia Reunida", de Manuel Resende, livros Cotovia




O tradutor responsável pela visão de campo que temos da extraordinária poesia grega moderna, publicou três livros com a máxima discrição. Agora que foram reunidos, esta poesia prova ser um triunfo entre as lições tomadas dos clássicos e a juventude vivida na carne e no transbordo dos sentidos. 

Do que há a ter em conta ao nível das comoventes patifarias em que assentam as mais barrigudas reputações líricas, muito ficou nesse nó truculento que Jorge de Sena deu quando os brasileiros se lembraram de lhe pedir, em 1966, a sua contribuição para uma antologia com o sugestivo título “Cartas aos jovens poetas brasileiros”. A coisa nunca chegou a sair – e sempre teria sido curioso ler a carta de Sena no contraste assassino em que se demarcava dos demais – mas, ainda assim, o preciosíssimo testemunho salvou-se, sendo publicado década e meia mais tarde, no JL. 
Saltando logo por cima da circunstância (com as suas candentes e doces intenções) a que queriam amarrá-lo, Sena carreia o texto para onde mais lhe interessa, e oferece o mais preciso retrato da vida literária, cuspindo de rajada balas suficientes para deitar por terra qualquer convicção de que há ainda margem para alguém entrar por ali “forçando as portas”. Denunciando esse meio como “uma maçonaria como qualquer outra”, diz o que há a dizer a aspirantes, afoga uma a uma as ilusões que tenham de impor-se digna e inteiramente “com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos”. 
E isto vem ao caso...? Vem, se o caso for o de Manuel Resende, cuja reunião dos três livros que publicou – com hiatos bestiais de permeio (1983, 1998 e 2004) – mais uns inéditos e dispersos, nos obriga a reapreciar a obra dando conta do sustento saboroso das suas proporções, da admirável alacridade que não disfarça a pestilência da época, e da satisfação que trazem versos com os ritmos estudados pela História: “Dentro do próprio cansaço, a pouco e pouco me vão latejando epopeias, me sobram do coração,/ Fisicamente, com doce dor de alegria e o medo de ser verdade,/ Bichos/ Que espreitam da noite uma clareira onde deitar a sua longa errância./ E cada um vai ocupando o seu lugar.” 
Diante desta canção envelhecida em barricas generosas, da demarcação que traça face à sensaboria que se produz noutras caves, por mais jactantes carreiras, a surpresa é tanto maior diante de um poeta que nos poupa às típicas alergias da estação lírica, como vamos espirrando o ouro em pó que usam para adoçar a insipidez de versos que nem disfarçam a urgência nenhuma do que nos vêm dizer. Em tantos versos de Resende há como um golpe seco, o de um maduríssimo fruto que ao cair se sente próximo como se rachasse a terra. Sem trair a mais urgente entoação da poesia que não deixa de indignar-se, e não pode com tanta ironia, sabe deter-se como poucos, indo da cozinha a Sarajevo Srebrenica ou aos “Bombardeamentos de Dubrovnik”, de uma esquina numa retrete a “Tsintsum e Auschwitz”. Não se pense que há aqui aquele heroísmo tantã, ponte para esses refrões que parecem afectações dos brônquios, a língua das revoluções algo broncas. 
Testemunho de um século monstruoso cujos ecos têm já este pela garganta, mas com muito balanço, porque aqui “a ferida é mais funda e mais antiga,/ Escondida no Mediterrâneo ou no mar Cáspio, ou no Reno ou nas bombas de gasolina do Alabama, enorme e europeia,/ Percorreu todos os cantos da terra, em tudo cuspindo o seu vírus, e já é maior que nós. Como podemos com tanto mundo?”

E voltando lá atrás, e ao que disse Sena, percebe-se claramente o que faz esta terra a poetas como Resende, como Fernando Lemos, Rui Diniz, Carlos Poças Falcão, Paulo Teixeira e outros casos tão ou mais inquietantes, poetas a que não faltou a graça nem o ímpeto para forçar as portas, e parecem subtraídos por lonjuras que tantas vezes nada mais são que desinteresse. Não se pode deixar de sacrificar alguma coisa ao esquecimento, mas dá para desconfiar hoje que este tem recolhido a mais fina antologia da poesia portuguesa contemporânea, ao passo que nós nos temos de contentar com os inesquecíveis chatos, esses exemplos da nossa mais ordinária propensão lírica, cientistas na hora de enriquecer o verso de efeitos soporíferos. 
São precisos exemplos? Basta ir à tômbola da academia, tirar um número entre a linhagem que vai de um Nuno Júdice a uma Tatiana Faia, passando por Luís Quintais. Tudo gente com quem se pode contar se o sono se estiver a fazer difícil e quisermos variar a dieta, deixando os carneiros por versos, puxando esse irmão retardado do pasmo que é o bocejo. 
Da estreia com “Natureza Morta com Desodorizante” (1983) ao segundo “Em Qualquer Lugar” (1998) e, por fim, “O Mundo Clamoroso, Ainda” (2004), Manuel Resende parecia haver relegado para um plano secundário, e até destratado, o que há de sua safra quando comparado com a soberba perspectiva que nos deu dos nomes cimeiros da poesia grega moderna. E aqui há um paralelo que bem merece ser relevado com outro colosso discreto das nossas letras: José Bento. Aos 85 anos, tem uma obra poética em nome próprio e que, de tão vigiada, não toscaneja na sombra do monumental legado (uma biblioteca em si mesmo) que foi ficando da sua acção de missionário mandando cartas, fazendo mapas e trazendo ouro das suas expedições por todo o mundo hispânico. 
Resende cruza na sua poesia um ror de sombras e registos. Se não nos tem faltado os que da antiguidade exibem as velhas insígnias, neste poeta é o ouvido que prova estar apto a jogar linha entre as manias das vagas, sem trair o vigor desse “roxo mar que Ulisses navegou”, mas também não caindo na praia com a prepotência de um exército. Entre poemas bem longos que, com o passar dos anos, se foram abreviando, o ar sempre vibra, contagiado por esse trabalho “em renda fina”. E cabem num mesmo poema os versos ciciantes, o estalar dos dedos de mãos com raízes antigas, enquanto noutros, e mesmo quando o poeta fala de ruína, e do quanto se perdeu, damos por ousadias que vão além da homenagem àqueles “aristocratas debruando os nossos campos/ aqueles versos compridíssimos de ritmo e cor”. 
Nunca menos que jovial, e no primeiro livro até o apanhamos whitmaniamente na rua, com Álvaro de Campos dando mais vida aos cartazes, hasteando a revolução que muito cedo já a pouco sabia, mas houve ao menos a ilusão que lhe deu para proclamar: “Eu é um pseudónimo de nós/ E nós o pseudónimo disto tudo./Subamos proletários a nossa ascensão até ao brilho ofuscante,/ Se conseguirmos manter esta erecção da cabeça”. E se isto são versos cuspindo as pétalas do cravo, ainda viram o milagre das ruas que vivem “como bichos nascendo do mármore,/ como pedra que de repente é músculos”, o que dá para honrar essa embriaguez que muitos de nós nunca chegaremos a gozar, a de termos sidos todos, ao mesmo tempo, rapazes, respondendo a um impulso tão espontâneo e vital: “Corramos de corpo em riste a entornar-nos de sol pela cabeça abaixo”. 
Deve haver um valente reverso, um fulgor incontido, há alturas verdadeiramente altas e que vêm ainda saber com quantos contam, e tomam nota dos que maldizem por desfastio, reses, rendidos ao cinismo, e aqueles que ainda param a escutar se “se estendem as sedentas línguas verdes”. E no verso disso, mais recolhido, está o apuro cirúrgico hoje mais apreciado, que liga o intelecto aos nervos, esse “figo do avesso/ útero esventrado onde se eriça verde/ a carne da montanha que desliza e cai/ em milhares de focinhos com sede de água”. Resende é um poeta capaz de infundir na menor experiência o gosto de uma delicada cerimónia, tece a tal renda finíssima, mas enfebrecendo os detalhes. Os seus poemas nunca estão muito longe da força de cânticos, a sua igreja fica a céu aberto, vadiando, dançando de roda de um deus mais velho. 
Esta edição que recebemos com verdadeiro júbilo merece, no entanto, um reparo. O preço de capa do livro – 25 paus – é uma maldade. É o tipo de licença que se dá uma editora que, por não ter sucumbido com o seu grande responsável (André Jorge), desde o seu desaparecimento parece estar a impor-nos uma taxa pelos seus muitos méritos, como se nos cobrasse a saudade (ou a griff). Com isto, é o músculo que noutros tempos flectiu que agora parece desfazer-se. E um livro como este, que teria sido uma belíssima ilusão e lembrança de como as coisas eram, do melhor que a Cotovia nos deu, torna-se proibitivo. E é com pena que muitos dos leitores que gostariam de descobrir agora este poeta, terão de esperar que se desembaracem dele aqueles que vêem na poesia menos que um bem essencial, um mero luxo.

quinta-feira, abril 12, 2018

Chavela Vargas



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quarta-feira, abril 11, 2018



Já não há luzes acesas, dei o corte geral
afogando o quarteirão para ouvir-te
e o cochicho do alto foi o que ficou
a cerimónia das constelações esquecidas
debaixo uma terra que os mortos tornaram convulsa
os pertences espalhados na erva, dorme-se
pior que nunca, sons roubando formas
algum susto fazendo perguntas,
eu mal respiro, e só entre os dedos sujos.
A claridade veio e foi, eu vi-lhe
sobre a anca a marca das tuas cuecas
e de nada serviu a flor que desembainhei.

Bebo das poças, chove um restinho
dá-me uma conta para fazer sob o telheiro
a tarde com o último galo preso entre os joelhos
e eu recupero-me sob o alarido dum pássaro disperso
algum sonho operado por formigas
deixam-no a decompor-se sobre um espelho
bico aberto, envenenando o céu.

O sangue e o tempo não me dizem nada.
Daria o que tenho a um pássaro que cantasse pior
isto mesmo, quase gemesse
caindo fora do alcance do ouvido comum.
Como tem de ser. Mexe-me nos papéis
molha as penas nesse copo escuríssimo
tão misturado por esta arte insuportável,
arremetendo lenta contra os amanheceres
de que os pincéis bebem o seu contentamento.
Prefiro extrair um sal que mexa as águas,
puxe para terra novos terrores
um gole que me vire inteiro, de fora adentro
dentes para um lado, a vida que me resta
para o outro. O silêncio pesa-me o coração
vai ler-me a carta onde tu dizes que não vens
e se nem hoje vais mudar de opinião
passou já o tempo de ir buscar-te à força.
Sentes este frio? O mundo tem encolhido tanto
parece que nem sinto os pés.

terça-feira, abril 10, 2018


quando eu partir apanhado de surpresa
como se tolhido por um dislate dito
vão fazer o quê com os meus livros?
com o problema inesperado do peso?
com o teu modo tão peculiar de olhar-me?
com a minha aptidão para o silêncio?
(a minha biblioteca é indivisível)

quando eu estiver como um retrato
acelerado ao longo de uma recta
vão desequilibrar os meus cristais?
representar um luto muito preto?
respeitar a distância que mantinha?
quando eu partir apanhado de surpresa
para a viagem que jamais descarrila

José Sebag
in Cão até Setembro

The Lost City of Z (2016)



7/10

sexta-feira, abril 06, 2018

Roberto Juarroz IV




Prólogo

As palavras não são talismãs.
Mas qualquer coisa pode
ser transformada em poesia
se tocada pela palavra indicada.

Não se trata de magia nem de alquimia.

Trata-se de pensar de outro modo as coisas,
tocar e senti-las de outro modo,
abandonar as palavras que a usam
e dar espaço às palavras que a cantam,
as palavras que a elevam no vento
como flores desembainhadas pelo assombro.

Estacas convertidas em estrelas,
sapatos para calçar crucificações,
cegueiras abertas nas costas do dia,
visões reservadas para voltar a despertar,
ternuras que se adiam para salvar o amor.

Trata-se simplesmente de criar outra voz:
a voz ausente dentro das coisas.

...

Uma rede de olhares
mantém unido o mundo,
não o deixa cair.
E ainda que não saiba o que se passa com os cegos,
os meus olhos vão apoiar-se numas costas
que podem ser as de deus.
Seja como for,
eles buscam outra rede, outro fio,
que vai de olhos fechados com um traje emprestado
e descola uma chuva já sem solo nem céu.
Os meus olhos buscam isso
que nos faz tirar os sapatos
para ver se há algo sustendo-nos por baixo

ou inventar um pássaro
para averiguar se o ar existe
ou criar um mundo
para saber se há deus
ou pôr um chapéu
para comprovar que existimos.

...


O fundo das coisas não é a vida ou a morte.

Provam-me isto
o ar que se descalça nos pássaros,
um telhado de ausências que acomoda o silêncio
e este olhar meu que se revolve no fundo,
como todas as coisas se revolvem quando acabam.

E também mo prova
a minha meninice que era pão anterior à farinha,
a minha infância que sabia
que há fumos que descem,
vozes com as quais ninguém fala,
papéis onde o nome fica imóvel.

O fundo das coisas não é a morte ou a vida.
O fundo é outra coisa
que alguma vez irá além da margem.

...


Nocturnamente único,
o coração, sem pescoço, na cabeça,
caminhas pelo mundo com um traje sonoro,
sabor vestido de águas vivas,
esmagando a lua sépia dos mortos.

Andança que é estar,
sem girassol nem túmulos para os astros,
um pé raiz e outro é nuvem,
os olhos coração palavra coisa,
as mãos animais
na sua selva de mãos.

E entre corvos, aleijados e instrumentos,
teu punho na montanha de ser alguém,
desperto ainda que durmas,
aclarando a palavra homem
no lugar humano da dúvida de tudo.

Ao ver-te, sim, lembro-me.
Não interessa de quê, de quem: lembro-me.
A pele é um vento sólido
que comunica por dentro e fora
com a pele.

...

A sinceridade dissimulada da noite
guia as gotas de chuva
até à atenção exemplar das coisas
e uma sílaba antiga,
uma gota de homem,
humedece as paredes porosas do pensamento.
Borboleta de pedra viva
que recolhe a cor de uma estrela apagada
para enunciar o tecido ardente
onde o pensamento é pasto das coisas,
torre de alimento
para a fome intersticial e alerta.

Pensar é como amar.

...


A morte é outro fio da trama.
Há momentos em que poderia penetrar em nós
com a mesma naturalidade que o fio da vida

ou o fio do amor.
O tecido completar-se-ia então quase ternamente,
quase como se nós próprios o tecêssemos.

Há momentos para morrer.
Há momentos
em que o fio da morte
nos desfaz o tecido.

...


Um amor mais além do amor
por cima do rito do vínculo,
mais além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.

Um amor que não necessite regresso,
nem tão-pouco de partida.
um amor não submetido
às fúrias apaixonadas de ir e voltar,
de estarmos despertos ou adormecidos,
de chamar ou calar.

Um amor para estarmos juntos

ou para não o estarmos,
mas também para todas as posições intermédias.
uma amor como abrir os olhos.
E quem sabe também como fechá-los.

...


Agora tão só, neste pobre rosto em que te desfazes,
vi o rosto da menina que foste
e senti-te várias vezes minha mãe.

Senti-me o filho dos teus jogos,
do mundo que criavas e esperavas
como um pobre presente de aniversário.
E também dos sonhos que nunca confessaste
para que mais ninguém sofresse por eles.

Senti-me o filho dos teus primeiros gestos de mulher,
esses que também tinhas querido ocultar
e até te ocultaste,
para abreviar no mundo a irrealidade do assombro.

Senti-me o filho dos movimentos
que me prepararam como um antepassado da morte,
desenho obcecado
pela inserção das suas escamas.

E senti-te logo
a circunferência do meu trevo atordoado,
o ângulo do compasso que se abria,
o mapa das minhas febres confundidas com viagens,
o búzio dos meus ecos de homem.

E senti-te ainda mais,
senti-te ir ao ponto de ser duas vezes minha mãe
para que eu não pudesse deixar de sentir-te
e saltar até ao teu deus ou às minhas mãos,
que talvez não sejam minhas nem de ninguém.

E agora, ao reconvir o meu salto,
para saltar novamente
ou talvez para aprender a dá-lo passo a passo,
reencontro-te ou encontro-te a ti minha mãe,
ainda que já sejas apenas tua.
Demorei muito,
demorei todas as mulheres
e também todos os homens,
demorei o tempo interminavelmente largo
da vida interminavelmente breve,
para ir ao ponto de ser várias vezes teu filho.

(à minha mãe)

...

Gastar por antecipação o tempo da morte,
consumir o silêncio do futuro
como uma flor enterrada,
viver a crédito
da eternidade imparcial que nos espera,
pôr entre as manhãs e as tardes
algo mais digno de fé do que o meio-dia
e aprender a pôr termo às palavras,
ainda que apareçam encostadas.

Talvez assim a morte dure menos,
a vida use outras portas
e não se cansem tanto
os olhos que nos buscam.

...

O homem é sempre
o construtor de um cárcere.
E não se conhece um homem
até se saber que cárcere construiu.

Algumas vezes parece ser só o seu,
mas é também sempre o dos outros.
E não lhe basta construir a prisão:
proporciona também o carcereiro.

O único que o homem não põe
é o material para fazer a prisão,
porque há de sobre em todo o lado.

Mas há outra coisa
que não sabemos quem põe:
o combustível para o incêndio.

Porque se todo o homem é a história das suas cadeias,
a lamentável história de um ex-presidiário
que volta à sua prisão

ou inaugura outra,
às vezes é também a história de como se queimou
ao incendiar a maior das suas prisões.
Ou nem sequer a maior:

a que tinha chegado ao limite.


(a Carlos y Marcela)

Poesia vertical


Ninguém sabe a cor
do desejo mais profundo. 
Alejandra Pizarnik

Podia tê-lo encontrado
na plaza del Congreso,
ou talvez tomando café na Recoleta.

Solitário, fosse verão ou inverno,
um diário, de cada vez, e nem ele nem o dia.

Os olhos calmos, fundos,
de uma natureza penetrante,
abertos a muitas outras realidades,
verticais ou não.

Um homem qualquer,
de sobretudo e cachecol,
um porteño como tantos outros,
possivelmente o poeta mais metafísico do século.

Uma existência que compreendia muitas vidas:
supostamente, uma só morte,
não vai ser-lhe suficiente.

- Alessandro Prusso

Roberto Juarroz III


Tu não tens nome.
Talvez ninguém o tenha.

Mas há tanta fumo disperso pelo mundo,
tanta chuva imóvel,
tanto homem que não pode nascer,
tanto choro horizontal,
tanto cemitério abandonado,
tanta roupa morta
e a solidão ocupa tanta gente,
que o nome que não tens me acompanha
e o nome que ninguém tem cria um sítio
onde a solidão está a mais.

...


Buscar uma coisa
é sempre encontrar outra.
Assim, para achar algo,
há que buscar o que não existe.

Buscar o pássaro para encontrar a rosa,
buscar o amor para dar com o exílio,
buscar o nada para descobrir um homem,
andar para trás para seguir adiante.

A chave do caminho,
mais que nas suas bifurcações,
seu suspeito começo
ou seu duvidoso final,
está no cáustico humor
do seu duplo sentido.
Chega-se sempre,
mas a outra parte.

Tudo se dá.
Mas de forma inversa.

...


Pensar é uma incompreensível insistência,
algo parecido com alargar o perfume da rosa
ou fazer furos de luz
numa porção de treva.

E é também transbordar algo
numa insensata manobra
a partir de um barco inabalavelmente afundado
numa navegação sem barco.

Pensar é insistir
numa solidão sem retorno.

...


Se um de nós não é igual ao seu despertar
se o despertar o excede
ou se é menor que ele,
quem ocupa a diferença?

E se um de nós não é sequer igual ao seu dormir,
onde fica esse seu pedaço desperto
ou que outra coisa dorme ao nosso lado?

O signo igual parece às vezes
a duplicação ensimesmada
do de menos.

...


Enterraremos tudo,
os braços, o movimento e a pá,
a paixão das sextas-feiras,
a bandeira de andarmos sós,
a pobreza, essa dívida,
a riqueza, essa outra.

Enterraremos tudo até com sabedoria,
cortando sabiamente as porções,
ou cortando-as sem nos darmos conta, sabiamente.

Um resto de olhar
ficará flutuando como um pincel absurdo
sobre a trégua duplamente fiel de toda a ausência.
E o menos mal é que não haverá ninguém
para escavar logo bem fundo
e descobrir que não há nada enterrado.

...


Um caos lúcido
um caos de janelas abertas.

Uma confusão de vertigens claras
onde a incandescência se constrói
com o movimento total da ruptura.

Viajar pelas linhas
que se quebram a cada instante
e rodar como um êmbolo sem guia
para os núcleos aleatórios
das desistências originais.

Tocar as vértebras sem eixo,
os círculos sem centro,
as partições sem unidade,
os choques sem contato,
as quedas sem esquadro,
os pensamentos sem quem pense,
homens sem outro rosto que a sua dor.

E recolher aí a lei do casual,
a norma do impossível:
cada forma é uma ponta afiada do caos,
um ângulo perplexo dos seus olhos abertos,
os únicos abertos.

Porque o caos é a trégua do nada,
a lucidez sem compromisso,
a interseção afiada
de um espaço sem interesse pelos objectos
e de um tempo pensante.

...


Alguns dos nossos gritos
detêm-se ao nosso lado
e olham-nos fixamente
como se quisessem consolar-nos de eles mesmos.
Algumas palavras que dissemos
regressam e ficam ao nosso lado
como se quisessem convencer-nos
de que chegaram a algum outro lugar.

Alguns dos nossos silêncios
tomam a forma de uma mulher que nos abraça
como se nos quisessem secar
o suor da ternura solitária.

Alguns dos nossos olhares
regressam para se comprovarem em nós
ou talvez para permitir que nos olhemos de frente
como se quisessem demonstrar-nos
que o que nos acontece
é uma cópia do que não nos acontece.

Há momentos e talvez até uma idade da nossa imagem
em que tudo o que dela sai
retorna como um espelho para confirmá-la
na própria constância das suas linhas.

Assim se vai integrando
o nosso povoado mais secreto.

...


O sino está cheio de vento
embora não soe.
O pássaro está cheio de vôo
ainda que esteja quieto.
O céu está cheio de nuvens
mesmo que esteja sozinho.
A palavra está cheia de voz
ainda que ninguém a diga.
Todas as coisas são feitas de fugas,
ainda que não haja caminhos.

Todas as coisas fogem
em direcção à sua presença.

...


Também o infinito
Tem uma direita e uma esquerda.

Os deuses estão sempre à direita,
embora às vezes talvez se lembrem do outro lado.
O homem está sempre do lado esquerdo
e não pode recordar o outro lado.

Mas também o infinito
costuma dar voltar no ar como uma moeda,
que não sabemos quem lança
com os seus giros de sarcásticas guinadas.

E assim às vezes trocam-se os papéis,
mas não seguramente a memória.
O homem é o reverso do infinito,
embora o acaso o volte por um instante para o outro lado.

(para Michel Camus e Claire Tiévant)

...


Toda a nomenclatura é triste.
Cheira a campos murados,
a sequências de lúgubres adeuses,
a passos que esmagam,
a papéis manchados,
a descarnadas corrosões.

Ainda que se enumerassem os anjos,
ainda que as rosas fossem amontoadas,
ainda que os amores fossem indexados.

Toda a nomenclatura trava
a videira azul
cujos brotos demonstram
como o silêncio é um verbo.

Toda a nomenclatura atrasa
o relógio sem quadrante
do ritmo que é a vida.


quinta-feira, abril 05, 2018

Roberto Juarroz II



A densidade do que não existe,
a força do que não se tem
provoca remoinhos na água da vida
e cria um som de fundo
para todos os gestos.

Até o tecido preto da morte
tem um pálido fio
onde a trama cede e se aligeira
porque lhe falta morte.

E até o que nunca se viveu
e nunca morrerá
se acumula na greta de uma ausência
que o seu corpo lhe empresta.

A pedra do não ser,
a certeira condição negativa,
a pressão do nada,
é o último apoio que nos resta.

...


Todo o salto volta a apoiar-se.
Mas nalgum lugar é possível
um salto como um incêndio,
um salto que consuma o espaço
onde deveria terminar.

Cheguei às minhas inseguranças definitivas.
Aqui começa o território
onde é possível queimar todos os finais
e criar o próprio abismo,
para desaparecer caindo para dentro.

...


Há mensagens cujo destino é a perda,
palavras anteriores ou posteriores ao seu destinatário,
imagens que saltam do outro lado da visão,
signos que apontam mais acima ou mais abaixo do seu alvo,
sinais sem código,
mensagens envoltas noutras mensagens,
gestos que chocam contra a parede,
um perfume que retrocede sem voltar a encontrar a sua origem,
uma música que se derruba sobre si mesma
como um caracol definitivamente abandonado.

Mas toda a perda é o pretexto de uma descoberta.
As mensagens perdidas
inventam sempre quem deve encontrá-las.

...


Há poucas mortes inteiras.
Os cemitérios estão cheios de fraudes.
As ruas estão cheias de fantasmas.

Há poucas mortes inteiras.
Mas o pássaro sabe em que último galho pousa
e a árvore sabe onde termina o pássaro.

Há poucas mortes inteiras.
A morte é cada vez mais insegura.
A morte é uma experiência da vida.
E por vezes são precisas duas vidas
para poder completar uma morte.

Há poucas mortes inteiras.
Os sinos dobram sempre o mesmo.
Mas a realidade já não oferece garantias
e não basta viver para morrer.

...


O material com que se constroem as palavras
e a argamassa que o une
foram-me ensinando a pouco e pouco
um ritmo secreto e solitário.

Aprendi assim que toda a construção é uma música
e que toda a música é feita de olhares.
O olhar de uma palavra é o seu sentido,
entre as pálpebras tremidas de uma perda.

Porque não somos nós que olhamos as palavras:
são elas que nos olham a nós
e quem sabe também mais além de nós,
piscando os olhos com um ritmo secreto e solitário.

Talvez amanhã encontre uma palavra
que já não olhe para nenhuma parte
e que nem sequer pisque os olhos.
Uma palavra que se deixe olhar.

...


Descer o céu à terra,
onde sempre devia ter estado,
não para abusar da luz,
mas para desarticular o galpão da impotência
e abolir as razões
que pervertem o caminho da alegria.

A música perceptiva das estrelas
será adoçada na quena de um índio adormecido
e na sonoridade das ternuras,
enquanto de cada sombra nasce um duende
para exercer o ofício imprescindível
de apagar as datas de todos os epitáfios.

Não sabemos se viver é uma debilidade ou uma força,
mas sabemos que é uma mensagem escrita.
E essa mensagem só terá sentido
ao descer o céu à terra.

Além disso, a terra não sabe o que fazer com os mortos,
e baixar o céu à terra
poderia servir pelo menos
para corrigir a morte.

...


Bebo-me no copo de água com que atenuo a minha sede.
Escuto-me no final da palavra com que nomeio o mundo.
Aguardo por mim atrás da porta a que bato.
Recordo-me na substância do esquecimento com que me escondo na minha memória.
Soletro-me como um sonho silábico
no olhar com que me lêem os teus olhos.
Reconquisto-me investigando a ciência da perda.
E só reconheço a minha canção e a minha sombra
na arte secreta dos caminhos apagados.

Pude aprender, antes de me ir,
a não me deixar desenhar pela silhueta seca do homem.

...


As coisas imitam-nos.
Um papel arrastado pelo vento
reproduz os tropeços do homem.
Os ruídos aprendem a falar como nós.
A roupa adquire a nossa forma.

As coisas imitam-nos.
Mas no final
nós imitaremos as coisas.

...


Os poemas inacabados,
os poemas que se abandonam como uma derrota,
deixam as suas imagens nalgum canto desconhecido
onde pouco a pouco se vai formando solitário outro poema,
um poema que talvez um dia encontremos.

Assim nascem as formas na noite,
como criaturas aparentemente descartadas.
E não precisam de uma manhã que seja
para que se dêem a ver à luz.

As linhas da germinação e da espera
desenham intraduzíveis hieróglifos
sobre a pele que separa em todas as partes
o silêncio e a palavra.

Até que chega a conjunção reparadora
que veste com essa pele o novo corpo
e recolhe as antigas imagens,
porque nenhuma imagem se perde.

...


Tenho tido deus de sobra.

Devo recortar os seus contornos
e recuperar a fala,
antes que se apaguem os meus limites.

Devo reconhecer uma vez mais o campo
e dizer-me três ou quatro palavras,
antes que tudo se unifique.

Devo transplantar o que amo
e assegurar-lhe pelo menos uma fonte,
antes que me vire de costas.

Devo salvar algumas coisas,
ainda que não me salve,
antes que tudo se perca.

E para isso é preciso
que deus me vá faltando.


quarta-feira, abril 04, 2018

Roberto Juarroz



Penso que neste momento
talvez ninguém no universo pense em mim,
que só eu me penso,
e se agora morresse,
ninguém, nem eu, me pensaria.

E aqui começa o abismo,
como quando adormeço.
Sou o meu próprio sustento e retiro-mo.
Contribuo para decorar tudo de ausência.

Talvez seja por isto
que pensar num homem
se parece com salvá-lo

...


Há que cair e não se pode escolher onde.
Mas uma certa forma que o vento toma nos cabelos,
certa pausa no golpe,
certa esquina no braço
que podemos dobrar quando caímos.

É tão-só o limite de um signo,
a ponta que não se pensa de um pensamento.
Mas basta para evitar o fundo avaro de umas mãos
e a miséria azul de um Deus deserto.

Trata-se de dobrar um pouco mais uma vírgula
num texto que não podemos corrigir.

...


Enquanto fazes qualquer coisa
alguém está a morrer.

Enquanto puxas lustro aos sapatos,
enquanto odeias,
enquanto lhe escreves uma longa carta
ao teu único amor ou não único.

E ainda que pudesses chegar ou não fazer nada,
alguém estaria a morrer,
tentando em vão juntar cada um dos cantos,
tentando em vão não olhar fixamente a parede.

E ainda que estivesses a morrer,
alguém mais estaria a morrer,
apesar do teu legítimo desejo
de morrer num minuto com exclusividade.

Por isso, se te perguntam pelo mundo,
responde simplesmente: alguém está a morrer.

...


O outro que tem o meu nome
começou a desconhecer-me.
Desperta onde eu não durmo,
duplica-me a persuasão de estar ausente,
ocupa o meu lugar como se o outro fora eu,
copia-me nas montras que não admiro,
agudiza-me nos reflexos de que desisti,
desloca os sinais que nos unem
e visita sem mim as outras versões da noite.

Imitando o seu exemplo,
agora começo a desconhecer-me.
Talvez não exista outra maneira
de começarmos a conhecer-nos.

...


Sobramos.
Aqui ou não importa onde:
nalguma parte sobramos.
Somos o excedente
de alguma pedra transversal do destino.

A música está feita
das pegadas de um astuto animal
que se aproxima e de imediato se esfuma.
As palavras são minúsculos espasmos
de uma erva diminuta
que se apressa demasiado a crescer
e não consegue assim o seu próprio sol, a sua própria chuva.
Os amores ou ninguém,
os amores com ninguém,
ou ninguém com amores,
são órfãos que mamam
de um seio há muito esgotado.

Os deuses que caíram,
os deuses que não caem
porque nunca estiveram lá em cima,
a selva invegetal dos deuses,
dialoga unicamente
com o filo-horizonte que nos cerca.

As mãos, que antes foram,
e as coisas que não foram nunca
atam-se a este nu
que não aprisiona nada.

Não, não somos só nós:
tudo é algo que sobra.
Aqui ou em outra parte.

...


Forçar o piscar de olhos do que se sabe
como o miúdo empurra o brinquedo para o canto da mesa
e o deixa cair sem motivo,
quem sabe para brincar com o seu lugar vazio.

Há um céu de coisas enterradas,
um céu brusco e duplo,
no qual o outro se abstém.

...


Às vezes damo-nos conta de algo
entre a noite e a noite.
Damos por nós de súbito parados debaixo de uma torre
tão fina como o sinal de adeus
e pesa-nos mais que tudo desconhecer se o que não sabemos
é onde ir ou aonde regressar.
Dói-nos a forma mais íntima do tempo:
o segredo de não amar o que amamos.

Uma obscura pressa,
um contágio de asa
ilumina uma ausência desmedidamente nossa.
Compreendemos então
que há sítios sem luz, nem escuridão, nem mediações,
espaços livres
onde podíamos não estar ausentes.

...

Uma mosca anda de cabeça para baixo no tecto,
um homem anda de cabeça para baixo na rua
e algum deus anda de cabeça para baixo pelo nada.

Apenas tu não andas esta tarde,
a menos que as ausências puras
inventem outra forma de andar que não conhecemos:
andar de cabeça para cima.

Exploraremos o encontro do amor com a pedra,
a viagem da mão ao seu duelo,
a praia de bandeiras com que sonha o sangue,
a festa de ser homem quando o homem desperta
e cai em ser homem,
a fábula que se converte numa criança,
a mulher necessária para amar o que amamos
e até o que não amamos.
E exploraremos também o espaço vazio que deixaste no teu poema,
o espaço vazio que deixaste em cada palavra
e até no teu próprio túmulo
para alcançar o futuro.

Ali te encontraremos
e juntos iremos pôr-nos a andar de cabeça para cima.

(a Paul Éluard)

...


Os músculos gastam-se como pedaços de giz que escreveram demasiado,
o coração caminha por sua conta sobre as cordas que ele mesmo estende,
a hera dos anos trepa como um organismo espontâneo
e até as linhas que não desenhámos 
se arrancam de nós como se quisessem completar o seu desenho.

O homem quase não existe,
mas pode colaborar no desgaste e nas contracções.
O homem quase não existe,
mas pode colaborar com a sua ausência.

Talvez a existência do homem consista simplesmente
em aperfeiçoar o não existir.

...


Chega um dia
em que a mão percebe os limites da página
e sente que as sombras das letras que escreve
saltam do papel.

Detrás dessas sombras,
passa então a escrever nos corpos espalhados pelo mundo,
num abraço alargado,
num copo vazio,
nos restos de algo.

Mas chega outro dia
em que a mão sente que todo o corpo devora
furtiva e precocemente
o obscuro alimento dos signos.

Chegou para ela o momento
de escrever no ar,
de conformar-se quase com o seu gesto.
Mas o ar também é insaciável
e os seus limites são obliquamente estreitos.

A mão empreende então a sua última mudança:
passa humildemente
a escrever sobre ela mesma.



domingo, abril 01, 2018

sábado, março 31, 2018